Questão 54 do ENEM 2025 — Geografia
A ideia de êxodo urbano assume ares caricaturais. Pega a mais reduzida parte da pirâmide social e projeta para todos seus desejos defensivos. Se o êxodo urbano for compreendido como aquisição de uma segunda residência, então não estamos, de fato, falando de êxodo, mas da reversão de um excedente de renda de uma pequena fração da elite para as franjas metropolitanas. Se o êxodo urbano for compreendido como retorno aos municípios menos povoados, então não estamos, de fato, falando de êxodo urbano, mas de um movimento de migração de pessoas cuja estabilidade no emprego e a elevada renda lhes permitem simular, nas ilhas urbanas do interior agropecuário, a vida urbana metropolitana.
ARRAIS, T. A. O distópico êxodo urbano. Revista e, n. 11, maio 2021 (adaptado).
A crítica apresentada no texto evidencia uma dinâmica socioespacial marcada pela
Resolução comentada
O texto, de Tadeu Alencar Arrais (2021), analisa o debate durante a pandemia de covid-19 sobre um suposto "êxodo urbano", isto é, uma saída em massa das metrópoles para o campo e as cidades pequenas. O autor chama a ideia de "caricatural" e mostra que ela projeta, para toda a sociedade, o desejo de uma fração muito pequena da pirâmide social.
Note os dois exemplos citados. No primeiro, o êxodo seria a compra de uma segunda residência, o que é um excedente de renda de uma pequena fração da elite, e não uma fuga geral. No segundo, seria o retorno a municípios menos povoados, mas só por pessoas com "estabilidade no emprego e elevada renda", que mantêm lá um estilo de vida urbano. Em ambos, somente quem tem recursos pode se deslocar: a mobilidade é seletiva, atravessada por classe e renda, e não um fenômeno de toda a população.
Os distratores falam de assuntos que o texto não aborda. Valorização de tradições rurais seria o contrário do que se descreve, pois os migrantes querem "simular a vida urbana metropolitana". Redução de plantações, estagnação do comércio e precariedade das estradas também não são temas do texto, que trata de quem se desloca e por que, e não de economia agrária ou de infraestrutura.