Questão 55 do ENEM 2025 — Filosofia

A “invenção” dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita. Mas como uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que se recordam, que se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros e esboçam aos poucos a fachada de um método geral. Encontramo-los em funcionamento nos colégios, muito cedo; mais tarde, nas escolas primárias, no espaço hospitalar e na organização militar.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 2011.

O texto indica o seguinte aspecto da disciplina como ferramenta política:

A
Expansão das técnicas de suplício.
B
Judicialização das relações de poder.
C
Dissolução das distinções de nobreza.
✓
Capilarização das práticas de controle.
E
Espetacularização das medidas de penitência.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

O trecho é de Vigiar e punir (1975), de Michel Foucault, obra em que ele estuda o surgimento da sociedade disciplinar entre os séculos XVII e XIX. A "nova anatomia política" é a disciplina, um conjunto de técnicas que organiza o espaço, o tempo e os corpos para torná-los úteis e dóceis.

O autor afirma que essa tecnologia de poder não foi uma invenção súbita, mas "uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos", que "se imitam" e "apoiam-se uns sobre os outros", e que se encontram "nos colégios, nas escolas primárias, no espaço hospitalar e na organização militar". Perceba que ele descreve um poder que está disperso em várias instituições, e não concentrado no Estado ou em um soberano. É a capilarização das práticas de controle: como os capilares, o poder se espalha pelo corpo social, chegando às rotinas mais cotidianas.

Os distratores contrariam o próprio Foucault. O suplício, o castigo físico público do corpo, é o modelo do poder soberano anterior, que a disciplina substitui, e o mesmo vale para a espetacularização da penitência. A judicialização das relações de poder supõe tribunais e leis, e o texto fala de escolas, hospitais e quartéis. Já a dissolução das distinções de nobreza é uma questão de ordem social que não está no trecho.

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