Questão 55 do ENEM 2024 — Filosofia
Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação à sua própria civilização, tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir.
ADORNO, T. W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006 (adaptado).
Ao refletir sobre a crise civilizatória vivida com a Segunda Guerra Mundial, o autor aponta como uma das condições de possibilidade da barbarização o(a)
Resolução comentada
A questão cobra a leitura de Adorno sobre a barbárie: para a Teoria Crítica, ela não é o oposto da civilização técnica, mas um produto dela.
Repare no trecho: a barbárie surge na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, quando as pessoas ficam "atrasadas" em relação a essa própria civilização e dominadas por um impulso de destruição. Ou seja, o progresso técnico avançou sem acompanhamento de uma formação crítica e emancipadora. Para Adorno e Horkheimer, o Esclarecimento se converteu em dominação quando a razão passou a servir apenas para calcular meios, controlar a natureza e administrar pessoas, sem questionar os fins. É a chamada razão instrumental, que torna possível episódios como Auschwitz: eficiência técnica a serviço da destruição.
Por isso, a condição que viabiliza a barbarização é o obscurecimento da razão instrumental, isto é, a razão reduzida a instrumento, sem reflexão ética nem autonomia.
As demais ideias não aparecem no texto nem representam o diagnóstico do autor: a decadência da etiqueta burguesa e o enfraquecimento da instituição familiar são questões de costumes, alheias à crítica à técnica; o enfraquecimento do progresso produtivo inverte a tese, já que o problema de Adorno é justamente o excesso de desenvolvimento técnico sem emancipação; e a ideia de eclipse da experiência subjetiva, embora tenha afinidade com a Escola de Frankfurt, não é o que o trecho aponta como causa da barbárie.