Questão 33 do ENEM 2024 — Literatura

Num mundo ideal, o cronista funcionaria como o paciente de Lacan. Ficaria por aí, tocando sua vida, indo ao banco, almoçando no quilo, olhando vitrines atrás de um presente de Dia das Mães, até que surgisse uma ideia. Imediatamente, ele encontraria uma praça, se acomodaria num banco — se possível fosse, até alugaria um quartinho de hotel —, tiraria o laptop da mochila e escreveria seu texto, com todos os ingredientes colhidos na hora. Um romancista não precisa levar o laptop na mochila. Suas ideias podem amadurecer antes de ir pro papel. Ele está contando uma longa história, é bom que tenha algumas pistas de para onde está indo. Já o cronista, quanto mais cego ao iniciar seu passeio, maiores as chances de conhecer lugares novos no caminho.

PRATA, A. Trinta e poucos. São Paulo: Cia. das Letras, 2016.

Nesse texto, a reflexão acerca dos processos de elaboração que resultam em crônica ou em romance baseia-se na

A
semelhança formal dos elementos narrativos.
B
força do impacto psicológico sobre o cronista.
✓
forma como as temáticas ganham corpo na obra.
D
conformidade com estilos de outros escritores.
E
organização prévia dos recursos expressivos.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

A questão pede que você identifique em que se baseia a reflexão do texto sobre a diferença entre os processos de elaboração da crônica e do romance.

O texto descreve o cronista ideal como quem fica "tocando sua vida, indo ao banco, almoçando no quilo", até que "surgisse uma ideia", para então escrever "com todos os ingredientes colhidos na hora". Já o romancista "não precisa levar o laptop na mochila", pois suas ideias "podem amadurecer antes de ir pro papel"; ele conta "uma longa história" e convém que tenha "pistas de para onde está indo". Em contraste, o cronista, "quanto mais cego ao iniciar seu passeio, maiores as chances de conhecer lugares novos".

A comparação trata, portanto, de como o tema nasce e toma forma em cada gênero: no romance, com planejamento prévio; na crônica, a partir do cotidiano e do acaso. A resposta é a forma como as temáticas ganham corpo na obra.

As demais opções não correspondem ao texto. Ele não compara semelhanças formais entre os elementos narrativos, pois destaca diferenças. Não fala de impacto psicológico sobre o cronista nem de conformidade com estilos de outros escritores. E a organização prévia dos recursos expressivos descreveria só o romancista, não o contraste entre os dois gêneros.

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