Questão 32 do ENEM 2024 — Literatura
A falência
Até ali que sabia das misérias do mundo? Nada. Aquela noite do Castelo, tão simples, tão monótona, fora uma revelação! Era bem certo que a lágrima existia, que irrompiam soluços de peitos oprimidos, que para alguém os dias não tinham cor nem a noite tinha estrelas! Ela, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céu, como dizia o dr. Gervásio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.
E aquela mesma mágoa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se à outra, a Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanso nem paga!
Por quê? Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?
A falência
Até ali que sabia das misérias do mundo? Nada. Aquela noite do Castelo, tão simples, tão monótona, fora uma revelação! Era bem certo que a lágrima existia, que irrompiam soluços de peitos oprimidos, que para alguém os dias não tinham cor nem a noite tinha estrelas! Ela, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céu, como dizia o dr. Gervásio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.
E aquela mesma mágoa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se à outra, a Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanso nem paga!
Nesse fragmento do romance de Júlia Lopes de Almeida, escrito no cenário brasileiro pós-abolição, a narradora exprime um olhar crítico sobre a
Resolução comentada
O trecho é de um romance de Júlia Lopes de Almeida, ambientado no Brasil pós-abolição. A narrativa em terceira pessoa acompanha uma jovem de família abastada que, numa noite, descobre que existe sofrimento no mundo. Esse despertar de consciência social é o eixo do fragmento e revela o olhar crítico da narradora.
O contraste é construído entre a protagonista, "criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada", e Sancha, "da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma esteira, comendo em pé [...] curvada para um trabalho sem descanso nem paga!". Perceba que a descrição de Sancha acumula marcas de violência física, precariedade e, principalmente, trabalho sem remuneração ("nem paga"), o que mantém na liberdade formal a lógica da escravidão.
Assim, a crítica recai sobre a exploração da força de trabalho da população negra. A pergunta final, "Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?", reforça a denúncia da desigualdade que sustenta o conforto de uns à custa de outros.
Os demais enunciados não encontram apoio no texto. Não há referência à desvalorização da arte feita por mulheres: a "artista incipiente" é só um detalhe da personagem. Também não se fala de mudanças nas condições de moradia, de projeto político de emancipação feminina ou de uma disputa de poder entre brancos e negros; o foco não é a luta por poder, e sim a miséria vivida por Sancha e o trabalho explorado dela.