Questão 32 do ENEM 2024 — Literatura
Como dois e dois são quatro Sei que a vida vale a pena Embora o pão seja caro E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros E a tua pele, morena Como é azul o oceano E a lagoa, serena
Como um tempo de alegria Por trás do terror me acena E a noite carrega o dia No seu colo de açucena
Sei que dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena mesmo que o pão seja caro e a liberdade pequena
GULLAR, F. Dentro da noite veloz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
Em diálogo com importante fato da história política brasileira, o poema de Ferreira Gullar instaura tensivamente um olhar
Resolução comentada
A questão pede que você leia o poema de Ferreira Gullar em diálogo com um fato da história política brasileira, e identifique que olhar ele instaura de forma tensa.
O livro Dentro da noite veloz é de 1975, em plena ditadura militar. O poema afirma "Sei que a vida vale a pena / Embora o pão seja caro / E a liberdade pequena" e fala de "um tempo de alegria / Por trás do terror" que "me acena". Há uma tensão: de um lado, carestia, falta de liberdade e terror; de outro, a certeza ("como dois e dois são quatro") de que a vida vale a pena e de que a alegria virá. A "noite" carrega o "dia", ou seja, a esperança convive com a opressão.
Esse olhar é, assim, revigorado acerca do futuro sociopolítico do país, confiante de que a situação pode mudar.
As outras leituras ignoram a tensão. O poema não é conformado: o "embora" e o "mesmo que" reconhecem a opressão sem aceitá-la. Também não é saudosista, porque o tempo de alegria aparece como algo por vir. Não se restringe à política econômica, já que o pão caro é um sinal entre vários. E a conta "dois e dois são quatro" é metáfora de certeza, não de solução matemática.