Questão 33 do ENEM 2024 — Língua Portuguesa
Sempre passo nervoso quando leio minha crônica neste jornal e percebo que escapuliu a palavra “coisa” em alguma frase. Acontece que “coisa” está entre as coisas mais deliciosas do mundo. O primeiro banho da minha filha foi embalado pela minha voz dizendo, ao fundo, “cuidado, ela ainda é uma coisinha tão pequena”. “Viu só que amor? Nunca vi coisa assim”. O amor que não dá conta de explicação é “a coisa” em seu esplendor e excelência. “Alguma coisa acontece no meu coração” é a frase mais bonita que alguém já disse sobre São Paulo. E quando Caetano, citado aqui pela terceira vez pra defender a dimensão poética da coisa, diz “coisa linda”, nós sabemos que nenhuma palavra definiria de forma mais profunda e literária o quão bela e amada uma coisa pode ser. “Coisar” é verbo de quem está com pressa ou tem lapsos de memória. É pra quando “mexe qualquer coisa dentro doida”. E que coisa magnífica poder se expressar tal qual Caetano Veloso. Agora chega, porque “esse papo já tá qualquer coisa” e eu já tô “pra lá de Marrakech”.
TATI BERNARDI. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 3 jan. 2024 (adaptado).
O recurso utilizado na progressão textual para garantir a unidade temática dessa crônica é a
Resolução comentada
A questão pergunta que recurso garante a unidade temática da crônica, isto é, o que mantém o texto inteiro girando em torno de um mesmo assunto ao longo da progressão. Observe o texto: a autora fala da palavra "coisa" do começo ao fim.
Ela aparece em "coisinha", "coisa assim", "a coisa em seu esplendor", "coisa linda", "qualquer coisa", "coisa magnífica", e também no verbo "coisar", derivado da mesma palavra. Essa retomada constante do vocábulo e de seus cognatos é a reiteração. É ela que amarra os parágrafos e faz o leitor perceber que o tema é sempre o mesmo, o valor expressivo da palavra "coisa".
Os demais recursos existem no texto, mas não sustentam a unidade. A intertextualidade aparece nos versos de Caetano Veloso, porém eles são exemplos usados pontualmente, e não o que costura o texto todo. A metalinguagem está na referência à escrita da crônica, mas se concentra no início e no fim e é secundária. Os conectores "quando" e "porque" ligam apenas orações isoladas, sem alcance sobre o texto inteiro. Quanto à pronominalização, a opção cita "minha filha", "um namorado ruim" e os pronomes "ela" e "lo", mas essas retomadas não estão no trecho dado nem seriam a base da progressão.