Questão 30 do ENEM 2022 — Língua Portuguesa
A busca do “texto oculto” na leitura de notícias
Os meus colegas jornalistas que me perdoem, mas não dá mais para ler uma notícia de jornal apenas pelo que está publicado. O nosso universo informativo ficou muito mais complexo depois do surgimento da avalanche informativa na internet. Esse fenômeno, inédito na história do jornalismo, está nos obrigando a tomar uma notícia de jornal apenas como um ponto de partida para uma análise que, necessariamente, envolve a preocupação em descobrir o contexto do que foi publicado. A notícia de jornal não é mais a verdade definitiva, mas a porta de entrada numa realidade desconhecida e inevitavelmente complexa, contraditória e diversa. A principal mudança que todos nós teremos que incorporar às nossas rotinas informativas é a necessidade de sermos críticos em relação às notícias que leremos, ouviremos ou assistiremos. A busca de um novo modelo de formatação de notícias baseado numa cultura da diversificação informativa está apenas começando. O público passou a ter uma importância estratégica na atividade profissional porque os jornalistas necessitam, cada vez mais, dos blogs pessoais, das páginas da web e das postagens em redes sociais como fonte de notícias. A histórica dependência de fontes governamentais e corporativas está rapidamente sendo substituída pela notícia oriunda de comunidades, grupos sociais organizados e influenciadores digitais. A agenda de notícias das elites perde espaço para a agenda do público. É essa nova forma de ver a realidade que está na base da necessidade do chamado “texto oculto”, um jargão acadêmico para uma diversificação na nossa nova forma de ler, ouvir e ver notícias.
CASTILHO, C. Disponível em: www.observatoriodaimprensa.com.br. Acesso em: 30 out. 2021 (adaptado).
Ao problematizar os modos de ler notícias e a necessidade de se buscar o chamado “texto oculto”, o texto defende que esse processo implicará
Resolução comentada
A questão pede que você identifique o que o autor defende como consequência da busca do chamado "texto oculto" na leitura de notícias.
Acompanhe a argumentação. O autor diz que a internet criou uma "avalanche informativa" e que a notícia deixou de ser "a verdade definitiva" para ser "a porta de entrada numa realidade desconhecida". Daí vêm duas mudanças: o leitor precisa ser crítico e buscar o contexto do que foi publicado; e a imprensa precisa lidar com um "novo modelo de formatação de notícias", pois os jornalistas "necessitam, cada vez mais, dos blogs pessoais, das páginas da web e das postagens em redes sociais como fonte". A dependência de fontes governamentais e corporativas é substituída pela agenda do público.
A resposta correta é a que fala em adaptação na forma como a imprensa e o jornalismo produzem, apuram e apresentam as notícias, em razão desse novo cenário e do papel mais ativo do público. É exatamente o que o texto sustenta quando fala em novo modelo e em nova agenda.
As outras ideias falham porque descrevem causas, efeitos periféricos ou o oposto do que se defende. A ampliação da quantidade de informação disponível é o ponto de partida (a "avalanche"), não o resultado do processo. A alteração na prática interacional entre os usuários não é o foco. A demanda por informações fidedignas não é o argumento central. E a percepção da notícia como produto acabado contradiz a tese: o texto diz que a notícia deixou de ser verdade definitiva.