Questão 29 do ENEM 2022 — Literatura
Esaú e Jacó
Bárbara entrou, enquanto o pai pegou da viola e passou ao patamar de pedra, à porta da esquerda. Era uma criaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita enxovalhada, faziam-lhe um solidéu natural, cuja borla era suprida por um raminho de arruda. Já vai nisto um pouco de sacerdotisa. O mistério estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não fossem também lúcidos e agudos, e neste último estado eram igualmente compridos; tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o coração e tornavam cá fora, prontos para nova entrada e outro revolvimento. Não te minto dizendo que as duas sentiram tal ou qual fascinação. Bárbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabelos cortados, por lhe haverem dito que bastava.
– Basta, confirmou Bárbara. Os meninos são seus filhos?
– São.
ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
No relato da visita de duas mulheres ricas a uma vidente no Morro do Castelo, a ironia — um dos traços mais representativos da narrativa machadiana — consiste no
Resolução comentada
Bárbara é descrita como uma “criaturinha leve e breve”, quase ingênua, mas seus gestos calculados — interrogar as visitantes e confirmar com um “Basta” seco — mostram que ela é tudo menos inocente. A ironia machadiana está nesse contraste entre aparência simples e esperteza.
A opção que fala no mistério que cerca as clientes de práticas de vidência inverte os papéis: o mistério do trecho está nos olhos de Bárbara, a vidente, e não nas clientes que a procuram — por isso não é essa a ironia central da cena.