Questão 9 do ENEM 2020 — Literatura
Razão de ser
Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso, preciso porque estou tonto. Ninguém tem nada com isso. Escrevo porque amanhece, E as estrelas lá no céu Lembram letras no papel, Quando o poema me anoitece. A aranha tece teias. O peixe beija e morde o que vê. Eu escrevo apenas. Tem que ter por quê?
LEMINSKI, P. Melhores poemas de Paulo Leminski. São Paulo: Global, 2013.
Ao abordar o próprio processo de criação, o poeta recorre a exemplificações com o propósito de representar a escrita como uma atividade que
Resolução comentada
A questão pede que você identifique o que os exemplos do poema (as estrelas, a aranha, o peixe) revelam sobre a escrita como atividade.
Repare no percurso do texto: o eu lírico começa dizendo "Escrevo. E pronto." e "Ninguém tem nada com isso", recusando justificar-se. Em seguida cita exemplos da natureza: as estrelas que "lembram letras no papel", a aranha que tece teias, o peixe que "beija e morde o que vê". Nenhum desses seres explica o que faz; a aranha tece e o peixe morde por natureza, simplesmente. O verso final fecha o raciocínio: "Tem que ter por quê?".
A resposta correta é a que afirma que escrever dispensa explicações racionais: assim como a aranha tece e o peixe morde sem precisar de motivo, o poeta escreve porque escreve, por impulso e necessidade ("preciso porque estou tonto"). Os exemplos funcionam como analogias para essa ideia, e a pergunta retórica final a confirma.
As demais opções falham porque tomam um detalhe do poema por seu propósito. Falar em criatividade do artista ou em livre associação de imagens atribui ao texto um tema que ele não desenvolve; a relação entre estrelas e letras é só uma imagem pontual. A ideia de observação da natureza confunde o recurso (os exemplos) com a tese (a escrita não precisa de razão). Já a independência em relação à curiosidade do leitor nem aparece no poema.