Questão 128 do ENEM 2014 — Literatura
Tarefa
Morder o fruto amargo e não cuspir
Mas avisar aos outros quanto é amargo
Cumprir o trato injusto e não falhar
Mas avisar aos outros quanto é injusto
Sofrer o esquema falso e não ceder
Mas avisar aos outros quanto é falso
Dizer também que são coisas mutáveis…
E quando em muitos a não pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.
CAMPOS, G. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
Na organização do poema, os empregos da conjunção “mas” articulam, para além de sua função sintática,
Resolução comentada
Em cada estrofe, o “mas” liga um gesto de resistência silenciosa (“morder o fruto amargo e não cuspir”) ao gesto que realmente importa: “avisar aos outros”. Além de opor ideias, a conjunção introduz o argumento mais forte da sequência — a tarefa de denunciar o amargo, o injusto e o falso, que dá título e sentido ao poema.
Descrever apenas a oposição entre ações aparentemente inconciliáveis fica na função sintática básica do “mas”, exatamente o que o enunciado manda ultrapassar: a pergunta pede o valor argumentativo que a conjunção assume “para além” da sintaxe.