Questão 119 do ENEM 2014 — Literatura
Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
ANJOS, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
A poesia de Augusto dos Anjos revela aspectos de uma literatura de transição designada como pré-modernista. Com relação à poética e à abordagem temática presentes no soneto, identificam-se marcas dessa literatura de transição, como
Resolução comentada
O soneto de Augusto dos Anjos é típico da transição pré-modernista: conserva a forma fixa, a metrificação e as rimas herdadas do Parnasianismo e do Simbolismo, mas inova na expressividade — léxico científico como “carbono e amoníaco”, imagens chocantes como o verme roendo os olhos — e expressa profundo desconcerto existencial. É essa mistura de conservação formal e inovação temática que marca a transição.
A leitura que se apega apenas ao vocabulário cientificista — como em “carbono e amoníaco”, “epigênesis da infância” e “frialdade inorgânica” — e conclui que ele “restitui a visão naturalista do homem” reduz o poema a um retorno ao passado; o que caracteriza a transição é justamente a convivência do velho (forma) com o novo (expressividade e angústia).