Questão 120 do ENEM 2014 — Literatura

O negócio

Grande sorriso do canino de ouro, o velho Abílio propõe às donas que se abastecem de pão e banana:
— Como é o negócio?
De cada três dá certo com uma. Ela sorri, não responde ou é uma promessa a recusa:
— Deus me livre, não! Hoje não…
Abílio interpelou a velha:
— Como é o negócio?
Ela concordou e, o que foi melhor, a filha também aceitou o trato. Com a dona Julietinha foi assim. Ele se chegou:
— Como é o negócio?
Ela sorriu, olhinho baixo. Abílio espreitou o cometa partir. Manhã cedinho saltou a cerca. Sinal combinado, duas batidas na porta da cozinha. A dona saiu para o quintal, cuidadosa de não acordar os filhos. Ela trazia a capa de viagem, estendida na grama orvalhada.
O vizinho espionou os dois, aprendeu o sinal. Decidiu imitar a proeza. No crepúsculo, pum-pum, duas pancadas fortes na porta. O marido em viagem, mas não era dia do Abílio. Desconfiada, a moça surgiu à janela e o vizinho repetiu:
— Como é o negócio?

Diante da recusa, ele ameaçou:

— Então você quer o velho e não quer o moço? Olhe que eu conto!

TREVISAN, D. Mistérios de Curitiba. Rio de Janeiro: Record, 1979 (fragmento).

Quanto à abordagem do tema e aos recursos expressivos, essa crônica tem um caráter

A
Filosófico, pois reflete sobre as mazelas sofridas pelos vizinhos.
B
Lírico, pois relata com nostalgia o relacionamento da vizinhança.
✓
Irônico, pois apresenta com malícia a convivência entre vizinhos.
D
Crítico, pois deprecia o que acontece nas relações de vizinhança.
E
Didático, pois expõe uma conduta a ser evitada na relação entre vizinhos.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Toda a graça da crônica de Dalton Trevisan está no duplo sentido de “Como é o negócio?”: sob a aparência da venda de pão e banana, negociam-se encontros amorosos com as clientes. O texto tem caráter irônico, apresentando com malícia a convivência entre vizinhos — incluindo o vizinho que aprende o sinal e ameaça a moça.

A leitura de tom crítico que deprecia as relações de vizinhança não se sustenta: o narrador não julga nem deprecia as personagens; ele apenas expõe a situação com humor malicioso, deixando as entrelinhas por conta do leitor.

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