Questão 117 do ENEM 2011 — Literatura
Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho de Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes da música crioula para que o sangue de toda aquela gente despertasse logo, como se alguém lhe fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras numa floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor: música feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo estalar de gozo.
AZEVEDO, A. O Cortiço. São Paulo: Ática, 1983 (fragmento).
No romance O Cortiço (1890), de Aluízio Azevedo, as personagens são observadas como elementos coletivos caracterizados por condicionantes de origem social, sexo e etnia. Na passagem transcrita, o confronto entre brasileiros e portugueses revela prevalência do elemento brasileiro, pois
Resolução comentada
O fado português deixava todos "caindo em tristeza", até que o cavaquinho e o violão "romperam vibrantemente com um chorado baiano", despertando o sangue de todos com uma música "cada vez mais ardente e delirante". A prevalência do elemento brasileiro aparece no poder envolvente da música brasileira, que cala o fado português.
Apontar uma habilidade maior com instrumentos musicais desloca o foco: a superioridade retratada não é de habilidade técnica com instrumentos, mas da força sensual e contagiante da música crioula, que domina o ambiente e interrompe a nostalgia do fado.