Questão 118 do ENEM 2011 — Literatura
Guardar
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
MACHADO, G. In: MORICONI, I. (org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
A memória é um importante recurso do patrimônio cultural de uma nação. Ela está presente nas lembranças do passado e no acervo cultural de um povo. Ao tratar o fazer poético como uma das maneiras de se guardar o que se quer, o texto
Resolução comentada
Para o poema, guardar não é trancar em cofre, é "olhar, fitar, mirar por admirar", é velar: escreve-se e declama-se um poema para guardá-lo — e para que ele guarde o que há de essencial. Ao definir assim o fazer poético, o texto reforça a capacidade da literatura de promover a subjetividade e os valores humanos.
Dizer que a escrita poética é superior às demais formas de preservação da memória cultural exagera: o poema não afirma isso; ele apresenta o poema como uma das maneiras de guardar com afeto e vigília aquilo que se quer conservar.