Questão 121 do ENEM 2009 — Língua Portuguesa
Quando eu falo com vocês, procuro usar o código de vocês. A figura do índio no Brasil de hoje não pode ser aquela de 500 anos atrás, do passado, que representa aquele primeiro contato. Da mesma forma que o Brasil de hoje não é o Brasil de ontem, tem 160 milhões de pessoas com diferentes sobrenomes. Vieram para cá asiáticos, europeus, africanos, e todo mundo quer ser brasileiro. A importante pergunta que nós fazemos é: qual é o pedaço de índio que vocês têm? O seu cabelo? São seus olhos? Ou é o nome da sua rua? O nome da sua praça? Enfim, vocês devem ter um pedaço de índio dentro de vocês. Para nós, o importante é que vocês olhem para a gente como seres humanos, como pessoas que nem precisam de paternalismos, nem precisam ser tratadas com privilégios. Nós não queremos tomar o Brasil de vocês, nós queremos compartilhar esse Brasil com vocês.
TERENA, M. Debate. MORIN, E. Saberes globais e saberes locais.
Rio de Janeiro: Garamond, 2000 (adaptado).
Os procedimentos argumentativos utilizados no texto permitem inferir que o ouvinte/leitor, no qual o emissor foca o seu discurso, pertence
Resolução comentada
O discurso de Marcos Terena opõe o tempo todo 'nós' (os índios) a 'vocês': 'qual é o pedaço de índio que vocês têm?', 'nós queremos compartilhar esse Brasil com vocês'. Esses procedimentos argumentativos mostram que o ouvinte/leitor focado pelo emissor pertence a um grupo de brasileiros considerados como não índios.
A opção que descreve o ouvinte como pertencente ao mesmo grupo social do falante cai pela própria oposição nós/vocês: se o público fosse do mesmo grupo social do falante, não faria sentido perguntar que 'pedaço de índio' os ouvintes têm nem falar em 'usar o código de vocês'.