Questão 30 do ENEM 2025 — Língua Portuguesa
Uruku Urucum Rocou (Bixa orellana) Moju, dono da água, não gosta do cheiro de urucum. Mani’ojarã, dono da mandioca, e os donos das outras plantas cultivadas também não. Eles não suportam. Por isso, os Wajãpi se untam de urucum, deixam o rosto vermelho e se perfumam com seu aroma agradável. Além disso, os seres agressores, os jarã (donos) e os espíritos terrestres, gostam do cheiro dos fluidos humanos, do sangue, do suor. Então, o urucum os dissimula, protegendo as pessoas que vão caçar, caminhar pela floresta, que estão sendo perturbadas por espíritos em sonhos ou que estão em resguardo, como os doentes. O seu uso é tão cotidiano que os Wajãpi o plantam na aldeia, para ter sempre pertinho. Como o urucum não tem jarã, não tem problema nenhum em arrancar e usar para pintar.
STRAPPAZZON, A. I.; SIGOLO, R. P. Jardins da história: medicinas indígenas. Recife: ObservaPICS, 2022.
Esse verbete contribui para a preservação do patrimônio linguístico nacional, pois apresenta uma
Resolução comentada
O texto é um verbete de uma obra sobre medicinas indígenas, com o título “Uruku Urucum Rocou (Bixa orellana)”. O gênero verbete tem por função definir e explicar uma palavra ou um elemento, e aqui a explicação é feita a partir do saber do povo Wajãpi, e não de uma definição científica.
Perceba que o sentido do urucum é construído a partir de crenças e práticas do povo: “Moju, dono da água, não gosta do cheiro de urucum”, e os Wajãpi se untam dele para se proteger, porque o urucum “dissimula” o cheiro humano que atrai os “espíritos terrestres”. O texto ainda explica por que se pode usar o urucum livremente: ele “não tem jarã (dono)”. Ou seja, o conceito de “jarã”, o termo “urucum” e o uso da planta são definidos pela visão de mundo indígena, com palavras e categorias de seu próprio sistema de conhecimento.
Por isso o verbete contribui para a preservação do patrimônio linguístico: apresenta a definição de um termo na perspectiva ancestral indígena, registrando um vocabulário e um sentido que pertencem a essa cultura.
Os distratores não captam esse ponto. O texto não descreve um rito medicinal específico, e sim o uso protetor e cotidiano do urucum. Não relaciona vocábulos equivalentes entre línguas indígenas diferentes. Não “atualiza” os saberes tradicionais, mas os registra tal como são. E não descreve propriedades científicas, já que a explicação é espiritual e cultural, e não botânica ou química.