Questão 29 do ENEM 2025 — Literatura
Só entende os corações desse lugar quem mergulha nesse mar a perder de vista e recoberto de cana caiana, cana fita, cana roxa, cana-de-macaco, açúcar, melado, rapadura, aguardente, fumo, mandioca, quiabos, pimentas, moendas, frutas, fruta-pão, sobrados, senzalas, tachos, casa de purgar. Um reino dentro de outro, com tudo o que se tem direito: reis, rainhas, príncipes e princesas, bobos da corte, cortesãos, conselheiros e escravos, muitos escravos. […] A corte do massapé, como qualquer outra na história da humanidade, fazia tudo para não deixar escapar nenhum mísero grão dos seus domínios para quem estivesse de fora do seu apertado círculo. Os nomes se repetiam de pai para filho, para sobrinho, para netos e bisnetos, de forma concêntrica e repetitiva, para que não pairasse nenhuma dúvida de que são todos da mesma parentela. As farinhas todas num mesmo saco brasonado.
CRUZ, E. A. Água de barrela. Rio de Janeiro: Malê, 2018.
Nesse fragmento, o narrador enumera o resultado do trabalho com a terra, o qual, no contexto em que aparece,
Resolução comentada
O texto é um trecho de Água de barrela, romance de Eliana Alves Cruz, que descreve o mundo dos engenhos de cana do Recôncavo. O narrador compara o território a “um reino dentro de outro”, com “reis, rainhas, príncipes e princesas, bobos da corte, cortesãos, conselheiros e escravos, muitos escravos”: uma sociedade hierarquizada, centrada em poucas famílias.
A enumeração (“cana caiana, cana fita, cana roxa… açúcar, melado, rapadura, aguardente… sobrados, senzalas, tachos”) mostra a abundância produzida pela terra, mas o contexto desmonta qualquer ideia de fartura para todos. Note a continuação: a “corte do massapé” fazia “tudo para não deixar escapar nenhum mísero grão dos seus domínios” e os nomes se repetiam “de pai para filho, para sobrinho, para netos”, num círculo “apertado”. A imagem final, “as farinhas todas num mesmo saco brasonado”, resume uma elite que se mantém entre si.
O resultado do trabalho com a terra, no contexto, espelha a permanência dos privilégios de classe: a riqueza fica nas mãos da mesma parentela, enquanto os escravizados aparecem na lista como parte da engrenagem.
Os distratores perdem o sentido crítico. A enumeração não busca um panorama da população do campo, pois os produtos listados são cultivos, e não pessoas. Também não celebra a fartura: ela é restrita ao “apertado círculo”. Não defende a atividade coletiva, já que a riqueza não é compartilhada. E não valoriza o trabalho ao longo das gerações, porque o que passa de geração em geração são os nomes e os bens da família proprietária.