Questão 21 do ENEM 2025 — Literatura
O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei. [...] O meu medo é a vida piorar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de ajudante de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde já pôde o que fez já deu a sua cota de participação hein mãe não sei. O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por aí desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que eu vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei.
FREIRE, M. Contos negreiros. Rio de Janeiro: Record, 2005.
Nesse texto, a reiteração dos medos e das angústias do narrador exprime
Resolução comentada
O texto é um fragmento de prosa poética de Marcelino Freire, em Contos negreiros, estruturado como uma ladainha: a expressão “O meu medo é…” abre cada parágrafo e o refrão “hein mãe não sei” fecha os medos, num tom de desabafo diante de uma mãe que não tem respostas.
Perceba o que cada medo carrega. O narrador teme não conseguir “arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de ajudante de pedreiro” e imagina que, mesmo com “diploma debaixo do braço”, será parado pelo policial que “me olhe de cara feia”. Esses temores só fazem sentido para alguém que é pobre, provavelmente negro e periférico: o preconceito, o desemprego e a violência policial recaem sobre ele por causa de quem ele é na sociedade. A repetição (anáfora) reforça que a angústia não é pontual, mas constante.
Por isso, a reiteração exprime incertezas centradas em sua condição social. Mesmo o medo inicial, de tirar zero no vestibular, aparece como mais um elo de uma cadeia de inseguranças ligada ao lugar social do narrador.
Os distratores recortam só uma parte. Falar em fracasso escolar ou em formação profissional toma o medo do vestibular como se fosse o tema todo, mas ele é o ponto de partida. O futuro familiar quase não aparece, pois a mãe é apenas a interlocutora. E as políticas assistenciais surgem de modo irônico, na fala do “pessoal” (“o governo já fez o que pôde”), não como preocupação central do narrador.