Questão 17 do ENEM 2025 — Língua Portuguesa

Antes do inverno chegar. Ela tinha olhinhos brilhantes. Os mesmos de antes. Antes da fome. Antes das 17 mudanças de cidade. Dos sete filhos e dos muitos anos de trabalho dentro e fora de casa. Ela fazia ambrosia, bolo de fubá e pedacinhos de queijo. Antes do inverno, ela plantava flores novas e diferentes para nos esperar nas próximas férias de verão. Ela tinha o jeito de menina. Menina sapeca, correndo na grama seca do cerrado. O mesmo jeito de antes. Antes do marido (e mesmo com o marido). Antes do cansaço dos anos. Antes da dureza do trato com a terra. Ela tinha histórias. Compridas, curtas, divertidas e verdadeiras. Mas isso foi antes. Antes das lembranças se bagunçarem feito bolas coloridas de Natal esperando para serem montadas na árvore. Eu era sua neta. Antes do Alzheimer chegar, eu era sua neta. Mas ela é e sempre será minha avó.

PERSON, C. R. Borboletas no estômago: porque às vezes o título precisa ser adolescente e clichê, já que a vida exige sermos tão adultos. São Paulo: Ed. das Autoras, 2021.

A narradora, ao resgatar memórias da história de vida da avó, faz uso recorrente da locução “antes de”. Esse termo colabora para a progressão temática na medida em que

A
relaciona eventos ocorridos simultaneamente.
B
estabelece uma comparação entre as lembranças.
✓
ressalta fatos que ressignificam o momento presente.
D
sinaliza uma sequência que denota ações consecutivas.
E
apresenta uma explicação para as memórias resgatadas.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

O texto é um texto narrativo-lírico, em prosa, de Carolina Person, em que a neta lembra a avó que está perdendo a memória por causa do Alzheimer. A repetição da locução "antes de" estrutura a progressão do texto, e a questão pede que você explique que efeito ela produz no desenvolvimento das ideias.

Observe como a locução aparece: "Antes da fome. Antes das 17 mudanças de cidade", "Antes do inverno", "Antes do cansaço dos anos", "Antes das lembranças se bagunçarem", "Antes do Alzheimer chegar, eu era sua neta". Cada "antes" evoca um momento anterior a uma ruptura (a doença, a dureza da vida) e, ao fazer isso, contrasta o passado com o agora. O ponto de chegada é a última frase: "Mas ela é e sempre será minha avó". Assim, a locução ressalta fatos que ressignificam o momento presente: tudo o que veio antes muda o valor que a narradora dá à avó hoje, para quem a identidade permanece apesar da doença.

Descarte os distratores. Falar em simultaneidade contraria o sentido de "antes", que marca anterioridade. Falar em comparação entre lembranças exigiria conectivos como "mais que" ou "como", e aqui não há essa relação entre as lembranças. Falar em sequência de ações consecutivas também erra: os "antes" não organizam uma ordem de acontecimentos (a fome vem antes das mudanças?), mas sim uma série de cenas que sustentam o contraste com o presente. E a explicação para as memórias não aparece: a narradora não justifica as lembranças, apenas as evoca e depois as confronta com a doença.

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