Questão 15 do ENEM 2025 — Artes
O retrato como gênero da pintura ocidental ficou vinculado às elites, tornando invisíveis as populações que não faziam parte do círculo dominante. Num país de tradição escravocrata e colonizado por europeus como o Brasil, pouquíssimas pessoas negras e indígenas foram retratadas em pintura, e menos ainda identificadas com seus nomes nos retratos. Daí a importância, para a história da arte e para a história brasileira, dos retratos de Dalton Paula.

Disponível em: www.masp.org.br. Acesso em: 5 maio 2024 (adaptado).
Ao dar protagonismo a Zeferina e a João de Deus Nascimento, o artista Dalton Paula evidencia que a(s)
Resolução comentada
O texto introdutório (do Masp) explica que o retrato, na tradição ocidental, esteve ligado às elites e tornou invisíveis as populações negras e indígenas, que raramente eram retratadas e quase nunca identificadas por nome. Em seguida, aparecem duas pinturas a óleo de Dalton Paula, de 2018: o retrato de Zeferina, mulher negra de cabelo curto, brincos brancos e vestido de gola larga, e o de João de Deus Nascimento, homem negro de barba, com paletó e gravata, ambos de frente, sobre fundo azul-esverdeado.
Perceba duas pistas. Primeiro, os títulos: as obras levam o nome dos retratados, justamente o que o texto diz que faltava nos retratos de pessoas negras. Segundo, a composição: o enquadramento frontal, a pose séria, o fundo liso e a roupa digna seguem a convenção dos retratos de elite, agora aplicada a pessoas negras. Ao dar protagonismo a elas, o artista as inscreve na história da arte e da sociedade brasileira, e é isso que a questão chama de afirmação de identidade social. A arte, portanto, funciona como meio de reconhecimento e visibilidade de grupos antes apagados.
Os distratores extrapolam ou distorcem o texto. A alternativa sobre comunidades periféricas que passam a adquirir o gênero retrato fala de consumo de obras, assunto que não aparece. A que diz que as personagens simbolizam toda a sociedade brasileira generaliza dois indivíduos nomeados e específicos. A que vê a pintura como instrumento de ascensão social atribui à arte um efeito econômico que o texto não discute. E a que trata de memórias afetivas de imagens tradicionais ignora que o argumento é justamente o rompimento com a tradição, que excluía essas pessoas.