Questão 6 do ENEM 2024 — Língua Portuguesa

IGUAL-DESIGUAL

EU DESCONFIAVA: todas as histórias em quadrinho são iguais. Todos os filmes norte-americanos são iguais. Todos os filmes de todos os países são iguais. Todos os best-sellers são iguais.

Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais. Todos os partidos políticos são iguais. Todas as mulheres que andam na moda são iguais. Todas as experiências de sexo são iguais. Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais e todos, todos os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais. Todas as guerras do mundo são iguais. Todas as fomes são iguais. Todos os amores, iguais iguais iguais Iguais todos os rompimentos. A morte é igualíssima. Todas as criações da natureza são iguais.

Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais. Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa. Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar.

ANDRADE, C. D. Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1985.

Nesse poema, o recurso coesivo usado estilisticamente para promover a progressão temática é o(a)

A
uso de marcadores discursivos de contraste.
B
enumeração de itens associados pelo sentido.
C
aproximação de palavras de sentidos opostos.
✓
recorrência de uma mesma estrutura sintática.
E
emprego recursivo de diferentes qualificadores.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

A questão pede o recurso de coesão que, usado de forma expressiva, faz o poema avançar de uma ideia para outra.

O poema de Drummond inicia com "todas as histórias em quadrinho são iguais" e prossegue com "Todos os filmes...", "Todos os best-sellers...", "Todos os campeonatos...", "Todas as guerras...", "Todas as fomes...". Repare que cada oração repete a mesma construção: "Todos/Todas + substantivo + são iguais". Essa repetição martelada gera o efeito de monotonia e de generalização absoluta, e é ela que conduz o texto até a virada final: "Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem". O contraste com a série anterior só tem força porque a série repete a mesma fórmula sintática à exaustão.

A resposta é a recorrência de uma mesma estrutura sintática. O marcador de contraste ("Contudo") aparece uma única vez e marca a virada, mas não sustenta a progressão ao longo do poema. A enumeração de itens existe, mas o que organiza a progressão é a estrutura repetida, não a ligação por sentido entre os itens (que são bem heterogêneos: futebol, amores, fomes). Não há aproximação de palavras de sentidos opostos como recurso coesivo central, e os qualificadores quase não variam: o adjetivo "iguais" volta sempre.

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