Questão 6 do ENEM 2024 — Língua Portuguesa

Se você é feito de música, este texto é pra você

Às vezes, no silêncio da noite, eu fico imaginando: que graça teria a vida sem música? Sem ela não há paz, não há beleza. Nos dias de festa e nas madrugadas de pranto, nas trilhas dos filmes e nas corridas no parque, o que seria de nós sem as canções que enfeitam o cotidiano com ritmo e verso? Quem nunca curou uma dor de cotovelo dançando lambada ou terminou de se afundar ouvindo sertanejo sofrência? Quantos já criticaram funk e fecharam a noite descendo até o chão? Tudo bem... Raul nos ensinou que é preferível ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
Já somos castigados com o peso das tragédias, o barulho das buzinas, os ruídos dos conflitos. É pau, é pedra, é o fim do caminho. Há uma nuvem de lágrimas sobre os olhos, você está na lanterna dos afogados, o coração despedaçado. Mas, como um sopro, da janela do vizinho, entra o samba que reanima a mente. Floresce do fundo do nosso quintal a batida que ressuscita o ânimo, sintoniza a alegria e equaliza o fôlego. Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima.

Defendendo a importância da música para o bem-estar e o equilíbrio emocional das pessoas, a autora usa, como recurso persuasivo, a

A
contradição, ao associar o coração despedaçado à alegria.
B
metáfora, ao citar a imagem da metamorfose ambulante.
✓
intertextualidade, ao resgatar versos de letras de canções.
D
enumeração, ao mencionar diferentes ritmos musicais.
E
hipérbole, ao falar em “sofrência”, “tragédias” e “afogados”.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

O texto é uma crônica-carta de tom afetivo, em que a autora defende a presença da música na vida cotidiana e a apresenta como remédio para a dor e para o desânimo. A questão pede o recurso persuasivo mais característico do texto, e o que o sustenta do começo ao fim é o diálogo com a música brasileira.

Note os trechos: “metamorfose ambulante” e “velha opinião formada sobre tudo” remetem a Raul Seixas; “É pau, é pedra, é o fim do caminho” traz a música “Águas de março”, de Tom Jobim; “lanterna dos afogados” vem dos Paralamas do Sucesso; e “Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima” retoma o samba de Paulo Vanzolini. Esses versos entram no texto sem aspas, funcionando como parte da fala da autora. Isso é intertextualidade: o leitor que reconhece as canções sente a força do argumento, porque a própria música aparece ilustrando o poder que ela tem.

A opção que fala em contradição ao associar coração despedaçado à alegria faz uma leitura errada: o coração despedaçado é o ponto de partida e a alegria vem depois, como solução, sem que haja choque lógico. A que aponta metáfora na “metamorfose ambulante” escolhe um único trecho, e mesmo ele é uma citação, não uma invenção da autora. A que fala em enumeração de ritmos descreve algo real (lambada, sertanejo, funk, samba), mas apenas lista exemplos, sem produzir o efeito de convencimento central. A que fala em hipérbole em “sofrência”, “tragédias” e “afogados” confunde o vocabulário emotivo com exagero deliberado, e “sofrência” é, além disso, o nome de um gênero musical.

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