Questão 73 do ENEM 2024 — Filosofia
TEXTO 1
O empirismo moderno foi, em grande parte, condicionado por dois dogmas. Um deles é a crença em certa divisão fundamental entre verdades analíticas, ou fundadas em significados independentemente de questões de fato, e verdades sintéticas, ou fundadas em fatos. O outro dogma é o reducionismo: a crença de que todo enunciado significativo é equivalente a algum construto lógico sobre termos que se referem à experiência imediata.
TEXTO 2
Teses: 1. Somente os enunciados que possuem conteúdo factual são teoricamente significativos; enunciados que não podem, em princípio, estar fundamentados pela experiência são carentes de significado. 2. As ciências empíricas usam somente o conteúdo empírico da realidade. 3. A filosofia usa um conceito não empírico da realidade.
Ao comparar os textos, conclui-se que eles apresentam posicionamentos filosóficos divergentes com relação ao
Resolução comentada
Os textos pertencem à filosofia da linguagem e da ciência do século XX. O primeiro é de Quine, em Dois dogmas do empirismo, que critica a divisão entre verdades analíticas (fundadas em significados) e sintéticas (fundadas em fatos), e o reducionismo, segundo o qual todo enunciado significativo se reduz à experiência imediata. O segundo expõe a tese do positivismo lógico: só têm significado teórico os enunciados com conteúdo factual verificável pela experiência.
Compare o que cada um discute: o que faz um enunciado ter significado e como a linguagem se relaciona com a experiência e o conhecimento. Quine rejeita os critérios rígidos do empirismo lógico; o segundo texto os adota e declara sem sentido o que não pode ser fundamentado empiricamente. A divergência recai, portanto, sobre o estatuto epistemológico da linguagem, isto é, o que a legitima como fonte de conhecimento.
As demais opções não respondem ao que os textos contrastam. Moralidade e estética não são tratadas em nenhum dos dois. O conteúdo essencial da metafísica e o princípio constitutivo da ontologia até aparecem de raspão no segundo texto, que classifica a filosofia como não empírica, mas o primeiro não discute isso: ele trata do significado e da divisão entre tipos de verdade. O ponto de desacordo explícito nos dois é a relação entre linguagem, significado e conhecimento.