Questão 64 do ENEM 2024 — Sociologia

Axexe, um rito de passagem

No primeiro dia, foi colocada uma panela de barro no centro do barracão, a qual representava o espírito do morto presente na sala. Aqueles que dançavam depositavam moedas ao passarem junto dela e, ao seu redor, milho branco, mel, água, acaçás, cachaça. No segundo dia, os ogãs, antes de iniciar a cerimônia, caminharam pelo corredor formado pelas casas, batendo com longas varas de bambus nos seus beirais, até alcançarem o portão de entrada. No terceiro dia, quatro pessoas, as mais influentes do culto, carregaram um lençol, que aparentemente continha um corpo em seu interior. No entanto, esse corpo era formado por folhas verdes de plantas, que foram derramadas sobre uma pessoa.

O ritual brasileiro apresentado no texto representa, para seus adeptos, a

✓
manutenção de uma memória coletiva.
B
contestação de uma identidade étnica.
C
imolação de uma divindade africana.
D
legitimação de uma prática pagã.
E
promissão de uma revolta social.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

O texto descreve o axexê, ritual funerário de religiões de matriz africana, como o candomblé, realizado em etapas ao longo de vários dias. Há elementos simbólicos: a panela de barro que representa o espírito do morto, as oferendas de milho, mel e água, o cortejo e o lençol que carrega um "corpo" feito de folhas. O assunto da questão é cultura e sociedade, ou seja, como rituais organizam a vida e a identidade de um grupo.

Note que o axexê é um rito de passagem: marca a separação do falecido do mundo dos vivos e sua integração ao plano espiritual, conduzido pela comunidade, com participação dos mais velhos e influentes. Para os adeptos, a repetição dos gestos, dos alimentos e das cantigas transmitida entre gerações preserva a lembrança do morto e do grupo, isto é, a manutenção de uma memória coletiva.

Os distratores usam termos fortes, mas não correspondem ao texto. Nada sugere contestação de identidade étnica: o ritual afirma e reforça a identidade do grupo. Não há imolação de uma divindade: o que se homenageia é uma pessoa falecida, não se sacrifica um orixá. Chamar o rito de prática pagã é um julgamento externo e preconceituoso, e não o que ele significa para os adeptos. E nenhuma passagem indica revolta social: trata-se de um momento de luto e de coesão comunitária.

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