Questão 62 do ENEM 2024 — Filosofia
Os grupos dominantes são beneficiados em termos de credibilidade e podem, com isso, controlar falas de membros de outros grupos, descredibilizando seus testemunhos com base em concepções compartilhadas de preconceito de identidade (gênero e raça). Algumas formas de preconceito tornam as declarações das pessoas menos importantes devido ao seu pertencimento a determinado grupo social. Assim, um falante recebe menos credibilidade devido ao preconceito do ouvinte.
Com base na reflexão suscitada no texto, o preconceito de identidade é responsável por um tipo de injustiça
Resolução comentada
O texto descreve como grupos dominantes têm mais credibilidade e podem desqualificar o testemunho de membros de outros grupos por causa de preconceitos de identidade, como gênero e raça. É a reflexão da filosofia contemporânea sobre a chamada injustiça epistêmica (termo associado a Miranda Fricker), que diz respeito ao conhecimento: quem é ouvido, quem é levado a sério, quem é considerado fonte confiável.
O trecho decisivo é: "um falante recebe menos credibilidade devido ao preconceito do ouvinte". O prejuízo não é físico nem material, e sim o de ter a própria fala, o próprio saber e o próprio testemunho rebaixados. Isso compromete a circulação de informações e de conhecimentos na sociedade, ou seja, as trocas informacionais. Por isso a alternativa que fala em injustiça epistêmica, que prejudica essas trocas, é a que decorre do texto.
Os outros tipos de injustiça citados nas opções são conceitos reais, mas não respondem ao que o texto descreve. A injustiça econômica, que perpetua desigualdades materiais, trata de renda e de bens; o texto não fala disso. A estética, ligada a padrões corporais, e a afetiva, ligada à expressão de emoções, também não aparecem: nada no trecho trata de aparência ou de sentimentos. Já a sensorial, que privilegia habilidades visuais, não tem relação com credibilidade de testemunhos. O eixo do texto é sempre a confiança atribuída (ou negada) a quem fala.