Questão 35 do ENEM 2024 — Artes
Uma definição possível para o conceito de arte afro-brasileira pode ser: produção plástica que é feita por negros, mestiços ou brancos a partir de suas experiências sociais com a cultura negra nacional. Exemplos clássicos dessa abordagem são Carybé (1911-1997), Mestre Didi (1917-2013) e Djanira da Motta e Silva (1914-1979), cujas obras emergem e ganham forma em razão do ambiente social no qual habitaram e viveram. Se Didi era um célebre representante da cultura religiosa nagô baiana e brasileira, iniciado desde o ventre no candomblé, Carybé era argentino e, naturalizado brasileiro, envolveu-se de tal modo com essa religião que alguns dos orixás dos quais conhecemos a imagem visual são produções suas.
Sob a perspectiva da multiculturalidade e de acordo com o texto, a produção artística afro-brasileira caracteriza-se pelo(a)
Resolução comentada
O texto tem caráter expositivo-analítico: define o conceito de arte afro-brasileira e o ilustra com artistas de origens muito diferentes. A pergunta pede a leitura "sob a perspectiva da multiculturalidade", ou seja, atenta ao encontro e à convivência de várias culturas e experiências numa mesma produção.
A definição inicial é decisiva: trata-se de produção "feita por negros, mestiços ou brancos a partir de suas experiências sociais com a cultura negra nacional". O que define o conceito, portanto, não é a origem étnica do artista, mas a relação entre a vivência dele e a cultura negra. Os exemplos mostram isso: Mestre Didi, "iniciado desde o ventre no candomblé", tem vínculo de origem e de religião; Carybé, argentino naturalizado brasileiro, "envolveu-se de tal modo" com o candomblé que criou imagens de orixás conhecidas hoje. São trajetórias distintas e, por isso, relações complexas com os referenciais estéticos de matriz africana.
Daí a alternativa correta: a produção se caracteriza pela relação complexa entre as vivências pessoais dos artistas e os referenciais estéticos de matriz africana.
As outras vão contra o texto. Falar em estranhamento na apropriação da cultura religiosa ignora o "envolvimento" de Carybé. O distanciamento entre as raízes africanas e a estética de outras culturas contradiz a ideia de encontro. A visão uniformizadora das religiões e a padronização da forma e da temática desmentem a diversidade de trajetórias que o texto destaca ao citar três artistas tão diferentes.