Questão 29 do ENEM 2024 — Literatura

A resistência

Julián Fucks
Meu irmão é filho adotivo. Há uma tecnicidade no termo, filho adotivo, que contribui para sua aceitação social. Há uma novidade que por um átimo o absolve das mazelas do passado, que parece limpá-lo de seus sentidos indesejáveis. Digo que meu irmão é filho adotivo e as pessoas tendem a assentir com solenidade, disfarçando qualquer pesar, baixando os olhos como se não sentissem nenhuma ânsia de perguntar mais nada. Talvez compartilhem da minha inquietude, talvez de fato se esqueçam do assunto no próximo gole ou na próxima garfada. Se a inquietude continua a reverberar em mim, é porque ouço a frase também de maneira parcial — meu irmão é filho — e é difícil aceitar que ela não termine com a verdade tautológica habitual: meu irmão é filho dos meus pais. Estou entoando que meu irmão é filho e uma interrogação sempre me salta aos lábios: filho de quem?

Das reflexões do narrador, apreende-se uma perspectiva que associa a adoção

✓
a representações sociais estigmatizadas da parentalidade.
B
à necessidade de aprovação por parte de desconhecidos.
C
ao julgamento velado de membros do núcleo familiar.
D
ao conflito entre o termo técnico e o vínculo afetivo.
E
a inquietações próprias das relações entre irmãos.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

O trecho de A resistência, de Julián Fucks, é narrado por um irmão de adotado e funciona como uma reflexão sobre a própria linguagem: o narrador examina o que significa dizer "meu irmão é filho adotivo" e como as pessoas reagem a essa frase. A pergunta pede a perspectiva sobre a adoção que se depreende desse raciocínio.

Veja os indícios. Ele afirma que o termo "filho adotivo" tem uma "tecnicidade" que "contribui para sua aceitação social", como se "limpasse" seus "sentidos indesejáveis". Quando ele diz a frase, as pessoas "assentem com solenidade, disfarçando qualquer pesar" e baixam os olhos, sem perguntar mais nada. Ou seja, a adoção está cercada de constrangimento, de pesar e de sentidos socialmente indesejáveis, que o termo técnico tenta amenizar. Por fim, a pergunta "filho de quem?" mostra que a filiação adotiva ainda é lida em comparação com a biológica ("filho dos meus pais").

Assim, a alternativa que associa a adoção a representações sociais estigmatizadas da parentalidade é a que decorre do texto.

Os distratores deslocam o foco. A necessidade de aprovação de desconhecidos é uma inversão: o narrador fala da reação alheia, mas não busca aprovação. O julgamento velado de membros da família não aparece, pois a reação descrita é a de pessoas em geral. O conflito entre o termo técnico e o vínculo afetivo é sugerido, mas o texto não opõe afeto e técnica; ele critica o que o termo esconde. E as inquietações entre irmãos não são o tema: a inquietude nasce da forma como a sociedade encara a adoção.

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