Questão 24 do ENEM 2024 — Literatura
TEXTO 1
Capítulo 4, versículo 3
Racionais MCs
Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição
Na queda ou na ascensão, minha atitude vai além
E tem disposição pro mal e pro bem
Talvez eu seja um sádico ou um anjo, um mágico
Ou juiz, ou réu, o bandido do céu
Malandro ou otário, quase sanguinário
Franco atirador se for necessário
Revolucionário, insano, ou marginal
Antigo e moderno, imortal
Fronteira do céu com o inferno
Astral imprevisível, como um ataque cardíaco do verso.
TEXTO 2
Ouvindo Racionais MCs
Pode-se dizer que as várias experiências narradas nos discos do Racionais tratam no fundo de um só tema: a violência que estrutura a nossa sociedade. O grupo canta a violência que estrutura as relações entre os familiares, os amigos, o homem e a mulher, o traficante e o viciado. Canta a violência do crime. A violência causada por inveja ou por vaidade. Também canta que a relação entre as classes sociais é sempre violenta: o racismo, a miséria, os baixos salários, a concentração de renda, a esmola, a publicidade, o alcoolismo, o jornalismo, o poder policial, a justiça, o sistema penitenciário, o governo existem por meio da violência.
Na letra da canção, a tematização da violência mencionada no Texto 2 manifesta-se
Resolução comentada
Os dois textos dialogam. O primeiro é a letra de "Capítulo 4, versículo 3", dos Racionais MCs; o segundo, um trecho de ensaio crítico que afirma que a obra do grupo trata, no fundo, de um tema só: a violência que estrutura a sociedade brasileira. A questão pergunta como essa violência se manifesta na letra citada.
Leia o início: "Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição". O eu lírico equipara a palavra a uma arma. Mais adiante, a figura do "franco atirador se for necessário" e do "revolucionário" reforça a imagem. Aqui o recurso é metalinguístico: a canção fala da própria palavra (do verso, do rap) e a define como instrumento de combate e de insubordinação. Fecha o trecho com "ataque cardíaco do verso", de novo associando a linguagem poética a um golpe. A violência aparece, portanto, convertida em força da palavra.
É esse o sentido da alternativa que aponta a violência como procedimento metalinguístico, que concebe a palavra como forma de combate.
Os demais itens parecem plausíveis, mas descrevem outra coisa. A metáfora da desigualdade associada à justiça não tem apoio direto nos versos. A crítica à opressão nas periferias por meio de termos bélicos é uma leitura de fundo social que a letra, nesse trecho, não explicita; o vocabulário bélico serve à autoafirmação do enunciador. As definições ambíguas ("anjo" e "sádico", "juiz" e "réu") revelam contradição, mas tratam da identidade do eu, não da violência. A menção à imortalidade tampouco fala de resistência entre vida e morte.