Questão 22 do ENEM 2024 — Literatura
Capitu: memórias póstumas
Domício Proença Filho
Data venia
Conheci Bentinho e Capitu nos meus curiosos e antigos quinze anos. E os olhos de água da jovem de Matacavalos atraíram-me, seduziram-me ao primeiro contato. Aliados ao seu jeito de ser, flor e mistério. Mas tomou-me também a indignação diante do narrador e seu texto, feito de acusação e vilipêndio. Sem qualquer direito de defesa. Sem acesso ao discurso, usurpado, sutilmente, pela palavra autoritária do marido, algoz, em pele de cordeiro vitimado. Crudelíssimo e desumano: não bastasse o que faz com a mulher, chega a desejar a morte do próprio filho e a festejá-la com um jantar, sem qualquer remorso. No fundo, uma pobre consciência dilacerada, um homem dividido, que busca encontrar-se na memória, e acaba faltando-se a si mesmo. Retomei inúmeras vezes a triste história daquele amor em desencanto. Familiarizei-me, ao longo do tempo, com a crítica do texto; poucos, muito poucos, escapam das bem traçadas linhas do libelo condenatório; no mínimo concedem à ré o beneplácito da dúvida: convertem-na num enigma indecifrável, seu atributo consagrador.
Eis que, diante de mais um retorno ao romance, veio a iluminação: por que não dar voz plena àquela mulher, brasileira do século 19, que, apesar de todas as artimanhas e do maquiavelismo do companheiro, se converte numa das mais fascinantes criaturas do gênio que foi Machado de Assis?
A empresa era temerária, mas escrever é sempre um risco. Apoiado no espaço de liberdade em que habita a Literatura, arrisquei-me.
O resultado: este livro em que, além-túmulo, como Brás Cubas, a dona dos olhos de ressaca assume, à luz do mistério da arte literária e do próprio texto do Dr. Bento Santiago, seu discurso e sua verdade.
Para apresentar a apropriação literária que faz da obra de Machado de Assis, o autor desse texto
Resolução comentada
O texto é um prefácio, "Data venia", em que Domício Proença Filho apresenta seu romance Capitu: memórias póstumas, uma releitura de Dom Casmurro que dá voz à personagem de Machado de Assis. A questão pede o modo como ele organiza o texto para apresentar essa apropriação literária.
Acompanhe a progressão. Primeiro, o autor fala de si: conheceu Bentinho e Capitu aos quinze anos, foi seduzido pelos "olhos de água" da jovem e tomado pela indignação com o narrador. É uma contextualização do enredo feita a partir da experiência subjetiva de leitor, não um resumo neutro. Depois lembra a crítica, que condena ou, no máximo, deixa Capitu como enigma. Na conclusão vem a decisão: "dar voz plena àquela mulher", de modo que ela assuma "seu discurso e sua verdade". Ou seja, explicita-se o foco narrativo que o livro vai adotar, o de Capitu.
A alternativa que descreve esse percurso, contextualizar o enredo subjetivamente e, ao final, explicitar o foco narrativo a ser assumido, é a que corresponde ao texto.
Os distratores falham na ordem ou no conteúdo. Dizer que ele reafirma um ponto de vista adotado antes ignora que a mudança de perspectiva é o objetivo do livro. Explicar a crítica e redimensioná-la reduz a discussão a algo que ocupa apenas um trecho. Introduzir a história e apresentar motivos para refutá-la inverte a lógica, porque ele contesta o narrador, não a história em si. Justificar uma abordagem e depois reconsiderá-la é falso: o autor arrisca-se e mantém a escolha.