Questão 21 do ENEM 2024 — Língua Portuguesa
Outra autobiografia
Rita Lee
Volta e meia recebo cartinhas de fãs, e alguns são bem jovens, contando como meu trabalho com a música mudou a vida deles. Fico no céu lendo essas coisas e me emociono quando escrevem que não são aceitos pelos pais por serem diferentes, e como minhas músicas são uma companhia e os libertam nessas horas de solidão.
Sinto que é mais complicado ser jovem hoje, já que nunca tivemos essa superpopulação no planeta: haja competitividade, culto à beleza, ter filho ou não, estudar, ralar para arranjar trabalho, ser mal remunerado, ser bombardeado com trocentas informações, lavagens cerebrais...
Queria dar beijinhos e carinhos sem ter fim nessa moçada e dizer a ela que a barra é pesada mesmo, mas que a juventude está a seu favor e, de repente, a maré de tempestade muda. Diria também um monte de clichê: que vale a pena estudar mais, pesquisar mais, ler mais. Diria que não é sinal de saúde estar bem-adaptado a uma sociedade doente, que o que é normal para uma aranha é o caos para uma mosca.
Meninada, sintam-se beijados pela vovó Rita.
Como estratégia para se aproximar de seu leitor, a autora usa uma postura de empatia explicitada em
Resolução comentada
O texto é uma crônica autobiográfica de Rita Lee, em tom afetuoso e coloquial, dirigida aos jovens que lhe escrevem. A autora fala de si ("vovó Rita"), comenta as dificuldades de ser jovem hoje e dá conselhos. A questão pede o trecho em que a empatia, isto é, a capacidade de se colocar no lugar do outro, aparece de forma explícita, como estratégia de aproximação.
Empatia, aqui, significa reconhecer a dificuldade vivida pelo leitor. Isso ocorre em "Sinto que é mais complicado ser jovem hoje", frase em que a autora admite que o contexto atual impõe pressões novas (competitividade, culto à beleza, excesso de informação, trabalho mal remunerado). Ela não minimiza o problema nem fala do alto da experiência; reconhece a dor do outro, e é esse reconhecimento que a aproxima do público jovem.
Daí a alternativa correta ser a que cita esse trecho do reconhecimento do sofrimento juvenil.
Os outros trechos são tentadores, mas diferentes. O primeiro apenas apresenta o fato de receber cartas de jovens, sem manifestar posição. "Fico no céu lendo essas coisas" é uma imagem sobre o estado emocional da própria autora. O desejo de dar "beijinhos e carinhos" expressa afeto, mas é uma vontade dela, e não a compreensão da situação do jovem; afeto e empatia não são sinônimos. Por fim, a frase sobre estar bem-adaptado a uma sociedade doente é um conselho, ou seja, uma opinião que a autora oferece, não uma postura de colocar-se no lugar do leitor.