Questão 17 do ENEM 2024 — Literatura

Amora

Natália Borges Polesso
Marília acorda
Tomo café em golinhos para não queimar meus lábios ressequidos. Como pão em pedacinhos para não engasgar com um farelo mais duro. Marília come também, mas olha o tempo todo para baixo. Parece que tem um acanhamento novo entre a gente. Termino. Olho mais uma vez pela janela. O dia está bom. Quero caminhar pelo pátio. Marília levanta, pega o andador e põe ao lado da cama. Ela sabe que eu quero levantar sozinha, e levanto. O lance de escadas, apesar de pequeno, ainda me causa problemas, mas não quero um elevador na casa e não vou tolerar descer uma rampa de cadeira de rodas. Marília abre a porta e saímos para a manhã. O dia está mais fresco do que eu imaginava. Ela pega uma manta de tricô que temos desde não sei quando e põe sobre as minhas costas. Ela aperta meus ombros com muita força, porque mesmo depois de todos esses anos, não descobriu a medida certa do carinho. Eu gosto. Porque entendo que naquele ato, naquela força está o nosso carinho.

Nesse trecho, o drama do declínio físico da narradora transmite uma sensibilidade lírica centrada na

A
necessidade de fazer adaptações na casa.
✓
atmosfera de afeto fortalecido pelo convívio.
C
condição de dependência de outras pessoas.
D
determinação de manter a regularidade da rotina.
E
aceitação das restrições de mobilidade da personagem.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

O trecho de Amora, de Natália Borges Polesso, é uma narrativa em primeira pessoa: uma mulher idosa, com limitações físicas, descreve uma manhã ao lado de Marília, sua companheira. A questão pede o centro da sensibilidade lírica, isto é, aquilo que o texto transforma em emoção, e não o assunto prático da cena.

O fecho resolve a questão: Marília aperta os ombros da narradora com muita força, "porque mesmo depois de todos esses anos, não descobriu a medida certa do carinho". E ela conclui: "Eu gosto. Porque entendo que naquele ato, naquela força está o nosso carinho". Há uma vida longa de intimidade ("uma manta de tricô que temos desde não sei quando"), gestos de cuidado discretos e até um "acanhamento novo" entre as duas. Tudo converge para um afeto que o tempo de convivência consolidou.

Assim, a alternativa que aponta a atmosfera de afeto fortalecido pelo convívio é a que sintetiza o lirismo do trecho: o declínio físico serve de pano de fundo, e o que emociona é o carinho sedimentado entre as personagens.

Os outros itens tratam de elementos reais da cena, mas periféricos. A adaptação da casa aparece só como recusa da narradora ("não quero um elevador"). A dependência de outras pessoas é desmentida pela insistência em levantar sozinha. A manutenção da rotina e a aceitação das restrições de mobilidade são traços de caracterização, não o núcleo emotivo. Aliás, a narradora não aceita a rampa nem a cadeira de rodas, o que enfraquece a ideia de aceitação.

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