Questão 59 do ENEM 2023 — Filosofia
A concepção tecnocrata está associada à fé em mercados — não necessariamente no capitalismo livre, laissez-faire, mas uma crença mais ampla de que mecanismos de mercado são os principais instrumentos para alcançar o bem público. Esse modo de pensar é tecnocrático, no sentido de que esvazia o discurso público de argumentos substantivamente morais e questões ideologicamente contestáveis como se fossem assuntos de eficiência econômica, domínio de especialistas. A verdadeira divisão, argumentaram eles, não era mais esquerda versus direita, mas aberto versus fechado. Isso insinuava que os contrários à terceirização, tratados de livre-comércio e fluxos de capitais irrestritos eram pessoas de mente fechada, não de mente aberta; eram tribais, não globais.
SANDEL, M. J. A tirania do mérito: o que aconteceu ao bem comum? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020 (adaptado). A crítica ao modelo de pensamento apresentado no texto fundamenta-se na postura de desvalorização do(a)
Resolução comentada
A questão pede que você identifique o que a concepção tecnocrática, criticada por Sandel, desvaloriza no debate público.
O autor diz que o pensamento tecnocrático, ao confiar nos mecanismos de mercado, "esvazia o discurso público de argumentos substantivamente morais e questões ideologicamente contestáveis", tratando-os como "assuntos de eficiência econômica, domínio de especialistas". Além disso, quem se opõe à terceirização ou ao livre fluxo de capitais é rotulado de "mente fechada" e "tribal". Ou seja, questões que deveriam ser debatidas e decididas pelos cidadãos são transformadas em assuntos técnicos, o que retira o povo do debate.
Portanto, a crítica recai sobre a desvalorização da participação política, que é a resposta correta.
As demais opções falham porque o sistema financeiro, o intercâmbio comercial e a produção exportadora são justamente os elementos que a tecnocracia valoriza, e não aquilo que ela desvaloriza; e o comportamento diplomático não é tema do texto.