Questão 19 do ENEM 2023 — Língua Portuguesa
Para começar, ele nos olha na cara. Não é como a máquina de escrever, que a gente olha de cima, com superioridade. Com ele é olho no olho ou tela no olho. Ele nos desafia. Parece estar dizendo: vamos lá, seu desprezível pré-eletrônico, mostre o que você sabe fazer. A máquina de escrever faz tudo que você manda, mesmo que seja a tapa. Com o computador é diferente. Você faz tudo que ele manda. Ou precisa fazer tudo ao modo dele, senão ele não aceita. Às vezes, quando a gente erra, ele faz “bip”. Assim, para todo mundo ouvir. Comecei a usar o computador na redação do jornal e volta e meia errava. E lá vinha ele: “Bip!” “Olha aqui, pessoal: ele errou.” “O burro errou!”.
Outra coisa: ele é mais inteligente que você. Esse negócio de que qualquer máquina só é tão inteligente quanto quem a usa não vale com ele. Está subentendido, nas suas relações com o computador, que você jamais aproveitará metade das coisas que ele tem para oferecer. A máquina de escrever podia ter recursos que você nunca usaria, mas não tinha o mesmo ar de quem só aguentava os humanos por falta de coisa melhor, no momento. E a máquina, mesmo nos seus instantes de maior impaciência conosco, jamais faria “bip” em público.
VERISSIMO, L. F. Pai não entende nada. Porto Alegre: L&PM, 1990.
Ao descrever sua relação com a máquina de escrever e o computador, o cronista adota uma perspectiva que
Resolução comentada
A questão pede a perspectiva do cronista ao comparar a máquina de escrever e o computador.
Verissimo contrapõe os dois aparelhos com humor: o computador “nos olha na cara”, “nos desafia”, “faz ‘bip’” quando erramos; já a máquina de escrever “faz tudo que você manda, mesmo que seja a tapa” e jamais “faria ‘bip’ em público”. Com o computador, “você faz tudo que ele manda”. Ou seja, ele destaca como são muito diferentes a relação do usuário com cada tecnologia, o poder de cada uma e o tratamento dado a quem as usa.
Perceba que o foco é a diferença entre as duas máquinas, e não um julgamento geral do progresso. O cronista até admite que o computador é “mais inteligente que você”, mas o ponto do texto é descrever o contraste.
A resposta é a que põe em evidência a disparidade entre as tecnologias. A opção sobre criticar a quantidade de recursos pega só um comentário lateral; defender equipamentos obsoletos e refutar o progresso técnico exageram o tom bem-humorado do texto; e sobrepor a inteligência humana à da máquina é o oposto do que ele afirma, já que o computador é descrito como mais inteligente que o usuário.