Questão 90 do ENEM 2023 — Filosofia
Não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim; embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as cousas a fraseologia, a casca, a ornamentação. ASSIS, M. Memórias póstumas do Brás Cubas. Belo Horizonte: Autêntica. 1999. A descrição crítica do personagem de Machado de Assis assemelha-se às características dos sofistas, contestados pelos filósofos gregos da Antiguidade, porque se mostra alinhada à
Resolução comentada
O narrador de Brás Cubas admite que só decorou fórmulas e fraseologia para ter assunto de conversa, sem se importar com o conteúdo real do conhecimento. Essa é justamente a marca dos sofistas: usar o discurso de forma hábil para convencer e parecer culto, não para buscar a verdade — trata-se da utilização persuasiva do discurso.
A elaboração conceitual de entendimentos é tentadora por parecer filosófica, mas descreve o oposto do texto: é o que os filósofos gregos (como Sócrates) valorizavam e cobravam dos sofistas, e não o que Brás Cubas fez ao apenas colecionar a casca das ideias.