Questão 29 do ENEM 2023 — Literatura

Era um gato preto, como convinha a um cultor das boas letras, que já lera Poe traduzido por Baudelaire. Preto e gordo. E lerdo. Tão gordo e lerdo que a certa altura observei que ia perdendo inteiramente as qualidades características da raça, que são em suma o ódio de morte aos ratos. Já nem os afugentava! Os ratos de Ouro Preto são também dignos e solenes — não ria — tradicionalistas… descendentes de outros ratos que naqueles mesmos casarões presenciaram acontecimentos importantes da nossa história… No sobrado do desembargador Tomás Antônio Gonzaga, imagine o senhor uma reunião dos sonhadores inconfidentes, com os antepassados daqueles ratos a passearem pelo sótão ou mesmo pelo assoalho por entre as pernas dos homens absortos na esperança da independência nacional! E depois, os ancestres daqueles roedores que eu via agora deslizar sutilmente no meu quarto podiam ter subido pelo poste da ignomínia colonial, onde estava exposta a cabeça do Tiradentes! E quando as órbitas se descarnaram ignominiosamente, podiam até ter penetrado no recesso daquele crânio onde verdadeiramente ardera a literatura, com a simplicidade do heroísmo, a febre nacionalista…

ALPHONSUS, J. Contos e novelas. Rio de Janeiro: Imago; Brasília: INL, 1976.

Descrevendo seu gato, o narrador remete ao contexto e a protagonistas da Inconfidência para criar um efeito desconcertante centrado no

A
Desenho imaginativo do casario colonial de Ouro Preto.
B
Efeito de apagamento de limites entre ficção e realidade.
C
Vínculo estabelecido entre animais urbanos e literatura.
D
Questionamento sutil quanto à sanidade dos inconfidentes.
✓
Contraste entre austeridade pomposa e imagem repugnante.
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

O narrador descreve seu gato preto, gordo e preguiçoso ao lado de referências solenes à Inconfidência Mineira e a Tiradentes. Esse choque entre o episódio histórico grandioso e a imagem cômica do gato cria um efeito centrado no contraste entre austeridade pomposa e imagem repugnante.

A leitura de um apagamento entre ficção e realidade usa um vocabulário sofisticado, mas não é isso que o texto faz: ele não confunde o real com o inventado, e sim justapõe, lado a lado, o tom solene da história com a comicidade doméstica do gato, produzindo humor pelo contraste, não pela fusão dos dois planos.

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