Questão 8 do ENEM 2022 — Literatura

Conseguindo, porém, escapar à vigilância dos interessados, e depois de curtir uma noite, a mais escura de sua vida, numa espécie de jaula com grades de ferro, Amaro, que só temia regressar à “fazenda”, voltar ao seio da escravidão, estremeceu diante de um rio muito largo e muito calmo, onde havia barcos vogando em todos os sentidos, à vela, outros deitando fumaça, e lá cima, beirando a água, um morro alto, em ponta, varando as nuvens, como ele nunca tinha visto... [...] todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensação tão forte de liberdade e vida, que até lhe vinha vontade de chorar, mas chorar francamente, abertamente, na presença dos outros, como se estivesse enlouquecendo... Aquele magnífico cenário gravara-se-lhe na retina para toda a existência; nunca mais o havia de esquecer, oh! Nunca mais! Ele, o escravo, “o negro fugido”, sentia-se verdadeiramente homem, igual aos outros homens, feliz de o ser, grande como a natureza, em toda a pujança viril da sua mocidade, e tinha pena, muita pena dos que ficavam na “fazenda” trabalhando, sem ganhar dinheiro, desde a madrugadinha té... sabe Deus!

CAMINHA, A. Bom Crioulo. São Paulo: Martin Claret, 2008. A situação descrita no fragmento aproxima-o dos padrões estéticos do Naturalismo em função da

A
fragilidade emocional atribuída ao indivíduo oprimido.
✓
influência da paisagem sobre a capacidade de resiliência.
C
impossibilidade de superação dos traumas da escravidão.
D
correlação de causalidade entre força física e origem étnica.
E
condição moral do indivíduo vinculada aos papéis de gênero.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

A questão pede o traço naturalista presente no fragmento de Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha.

O Naturalismo trata o ser humano como produto do meio, da hereditariedade e do momento, com descrição detalhada do ambiente. No trecho, a paisagem age sobre o personagem: “todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensação tão forte de liberdade e vida”, e o rio, os barcos e o morro o fazem sentir-se “verdadeiramente homem, igual aos outros homens, feliz de o ser, grande como a natureza”.

Perceba que o ambiente modifica o estado de Amaro: ele, fugido da escravidão e com medo de voltar à “fazenda”, ganha ânimo e dignidade diante do cenário. Essa influência da natureza sobre o comportamento e a força interior do indivíduo é típica da estética naturalista.

A resposta é a influência da paisagem sobre a capacidade de resiliência. A fragilidade emocional contraria a “pujança viril” descrita. A impossibilidade de superar traumas também não se sustenta, pois ele se sente livre e feliz. A relação entre força física e origem étnica e a ligação entre moral e papéis de gênero não são afirmadas em nenhuma passagem.

Quer treinar Literatura para o ENEM de verdade?
Crie sua conta grátis: 10 questões por dia com correção na hora, simulados no formato da prova e estatísticas do seu desempenho.
Começar grátis