Questão 42 do ENEM 2022 — Língua Portuguesa
Em nenhum outro tipo de literatura a fantasia desempenha papel tão importante. Sapos se transformam em príncipes, animais conversam com humanos, mesas se põem sozinhas e contratempos insolúveis se resolvem de um parágrafo para outro. Essa falta de verossimilhança não afasta o leitor. Pelo contrário, juntamente com o anonimato dos príncipes e princesas, que não têm personalidade definida e vivem em terras distantes sem localização exata, ela facilita a identificação com os personagens. O mundo da fantasia abre espaço para que coisas desagradáveis, que não seriam toleradas em outros tipos de história, passem incólumes, como bruxas comedoras de criancinha e anões cruéis que roubam bebês. Boa parte do fascínio dos contos tem origem justamente nesse mundo sombrio. Contos de fadas não constituem sempre histórias agradáveis polvilhadas com açúcar, como a casa de pão de ló de João e Maria. Pelo contrário, as tramas são recheadas de malvadezas que sobrevivem às dezenas de adaptações. Podem passar despercebidas, mas estão lá. Ou é inofensiva a história de uma menina e sua avó que são devoradas vivas por um lobo? Ou é inocente o conto da menina que é sequestrada e obrigada a passar a juventude trancada no alto de uma torre? E o que dizer do bebê condenado à morte no dia do seu batizado?
Disponível em: https://super.abril.com.br. Acesso em: 20 jun. 2019 (adaptado).
As perguntas ao final do texto estão relacionadas ao argumento segundo o qual contos de fadas
Resolução comentada
A questão pede que você entenda a função das perguntas retóricas do final do texto, relacionando-as ao argumento que a autora vinha desenvolvendo sobre os contos de fadas.
O texto defende que a fantasia dos contos permite que apareçam "coisas desagradáveis, que não seriam toleradas em outros tipos de história", como "bruxas comedoras de criancinha e anões cruéis que roubam bebês". Segundo o texto, "boa parte do fascínio dos contos tem origem justamente nesse mundo sombrio" e as tramas são "recheadas de malvadezas". Em seguida vêm as perguntas: "Ou é inofensiva a história de uma menina e sua avó que são devoradas vivas por um lobo?", a menina "sequestrada e obrigada a passar a juventude trancada no alto de uma torre", o "bebê condenado à morte no dia do seu batizado". Todas elas exemplificam situações de violência, sofrimento e perigo.
Assim, a resposta correta é a que diz que os contos de fadas manifestam aspectos obscuros da condição humana: as perguntas servem para mostrar, com exemplos conhecidos, que por trás da aparência inocente há morte, crueldade e abandono.
As outras opções tratam de ideias que aparecem no texto, mas não são aquilo que as perguntas finais sustentam. Estimular a imaginação e favorecer a identificação com os personagens são pontos do início do texto; a adaptação aos valores de cada época é sugerida quando se fala em "dezenas de adaptações". Já dizer que os contos são inadequados para as crianças é uma conclusão que o texto não faz: a autora quer mostrar o lado sombrio, não condenar os contos.