Questão 42 do ENEM 2022 — Língua Portuguesa
10 de maio
Fui na delegacia e falei com o tenente. Que homem amavel! Se eu soubesse que ele era tão amavel, eu teria ido na delegacia na primeira intimação. […] O tenente interessou-se pela educação dos meus filhos. Disse-me que a favela é um ambiente propenso, que as pessoas tem mais possibilidade de delinquir do que tornar-se util a patria e ao país. Pensei: se ele sabe disto, porque não faz
um relatorio e envia para os politicos? O Senhor Janio Quadros, o Kubstchek, e o Dr. Adhemar de Barros? Agora falar para mim, que sou uma pobre lixeira. Não posso resolver nem as minhas dificuldades.
… O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome tambem é professora.
Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.
JESUS, C. M. Quarto de despejo: diário de uma favelada.
São Paulo: Ática, 2014.
A partir da intimação recebida pelo filho de 9 anos, a autora faz uma reflexão em que transparece a
Resolução comentada
Carolina de Jesus repete de forma sarcástica a fala do tenente sobre a favela e pergunta por que ele não leva essa “lição” aos políticos — uma forma de expor, com ironia, a inutilidade do discurso da autoridade diante da miséria real. É a resposta irônica ao discurso do tenente.
A opção que fala em lição de vida comunicada pelo tenente toma as palavras dele ao pé da letra, como se fossem realmente uma lição valiosa, mas a autora está debochando dele, não elogiando sua fala.