Questão 33 do ENEM 2022 — Língua Portuguesa
Notas
Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um… Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo.
ASSIS, M. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Disponível em: www.domíniopúblico.gov.br. Acesso em: 25 jul, 2022.
O recurso linguístico que permite o Machado de Assis considerar o capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas como inventário é a:
Resolução comentada
Soluços, lágrimas, o caixão, os convidados, o coche fúnebre: Machado de Assis apenas enumera, um a um, os elementos do funeral, como se fizesse uma lista de itens. É essa sequência de objetos e fatos que dá ao capítulo o aspecto de inventário.
A opção que aponta a presença de léxico do campo semântico de funerais está correta nesse ponto, mas o léxico sozinho não cria o efeito de “lista”; é a estrutura de enumeração, e não o significado das palavras, que gera essa sensação de inventário.