Questão 6 do ENEM 2020 — Língua Portuguesa
De acordo com alguns estudos, uma inovação do português brasileiro é o R caipira, às vezes tão intenso que parece valer por dois ou três, como em porrrta ou carrrne.
Associar o R caipira apenas ao interior paulista é uma imprecisão geográfica e histórica, embora o R tenha sido uma das marcas do estilo matuto do ator Mazzaropi em 32 filmes. Seguindo as rotas dos bandeirantes paulistas em busca de ouro, os linguistas encontraram o R supostamente típico de São Paulo em cidades de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e oeste de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, formando um modo de falar similar ao português do século XVIII.
Quem tiver paciência e ouvido apurado poderá encontrar também na região central do Brasil o S chiado, uma característica típica do falar carioca que veio com os portugueses em 1808 e era um sinal de prestígio por representar o falar da Corte.
A história da língua portuguesa no Brasil está revelando as características preservadas do português, como a troca do L pelo R, resultando em pranta em vez de planta. Camões registrou essa troca em Os Lusíadas — lá está um frautas no lugar de flautas —, e o cantor e compositor paulista Adoniran Barbosa a deixou registrada em frases como “frechada do teu olhar”, do samba Tiro ao Álvaro.
FIORAVANTI, C. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br. Acesso em: 11 dez. 2017.
Com base na afirmação de que “associar o R caipira apenas ao interior paulista é uma imprecisão geográfica e histórica”, o texto propõe uma discussão sobre a(s)
Resolução comentada
A questão pede que você interprete a afirmação de que associar o R caipira apenas ao interior paulista é "uma imprecisão geográfica e histórica", e descubra qual discussão o texto propõe a partir dela.
O texto mostra que o R caipira foi levado pelos bandeirantes a Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná e outras regiões, e que se parece com o português do século XVIII. Mostra também que o S chiado, típico do falar carioca, chegou com a Corte em 1808 e pode ser encontrado na região central do país. Por fim, cita a troca do L pelo R ("pranta", "frautas"), registrada por Camões e por Adoniran Barbosa. Ou seja, características tidas como regionais têm origem histórica e distribuição bem mais ampla, e o texto descreve a língua falada com interesse científico, sem juízo de valor.
A resposta correta é a que fala na importância do estudo, da preservação e do respeito à língua falada no Brasil, pois o texto trata a fala como patrimônio com história e merece ser estudada, e não corrigida ou ridicularizada.
As distratoras tomam partes do texto como o todo. A relevância da fala de prestígio da Corte aparece só no exemplo do S chiado. A inovação sem equivalente em Portugal ignora que o texto liga muitos traços ao português antigo. As razões do preconceito linguístico não são analisadas. A variedade na literatura e na música é só exemplificação por Camões e Adoniran Barbosa, não o foco da discussão.