Questão 48 do ENEM 2020 — Sociologia
As canções dos escravos tornaram-se espetáculos em eventos sociais e religiosos organizados pelos senhores e chegaram a ser cantadas e representadas, ao longo do século XIX, de forma estereotipada e depreciativa, pelos blackfaces dos Estados Unidos e Cuba, e pelos teatros de revista do Brasil. As canções escravas, sob a forma de cakewalks ou lundus, despontavam frequentemente no promissor mercado de partituras musicais, nos salões, nos teatros e até mesmo na nascente indústria fonográfica — mas não necessariamente seus protagonistas negros. O mundo do entretenimento e dos empresários musicais atlânticos produziu atraentes diversões dançantes com base em gêneros e ritmos identificados com a população negra das Américas.
ABREU, M. O legado das canções escravas nos Estados Unidos e no Brasil: diálogos musicais no pós-abolição. Revista Brasileira de História, n. 69, jan.-jun. 2015.
A absorção de elementos da vivência escrava pela nascente indústria do lazer, como demonstrada no texto, caracteriza-se como
Resolução comentada
A questão pede que você nomeie o fenômeno social em que a indústria do entretenimento incorpora e comercializa expressões culturais de um grupo sem que esse grupo participe dos ganhos.
O texto conta que as canções criadas pelos escravizados viraram espetáculo: foram encenadas de forma estereotipada pelos blackfaces nos Estados Unidos e em Cuba e pelos teatros de revista no Brasil, venderam partituras e chegaram à nascente indústria fonográfica. Repare na frase decisiva: isso ocorreu "mas não necessariamente seus protagonistas negros". Ou seja, o produto cultural negro circulou e rendeu lucro, enquanto seus criadores ficaram à margem.
Quando elementos de uma cultura são retirados de seu contexto, reproduzidos e explorados comercialmente por outro grupo, em geral dominante, sem reconhecimento nem retorno aos criadores, a Sociologia chama isso de apropriação cultural. É exatamente o caso de lundus e cakewalks transformados em mercadoria pelos empresários musicais.
A resposta é apropriação cultural. As ideias de ação afirmativa (políticas de reparação e inclusão) e de desobediência civil (descumprimento pacífico de leis consideradas injustas) não aparecem no texto. A missão civilizatória justificaria dominar um povo "em nome do progresso", e o comportamento xenofóbico seria aversão ao estrangeiro; nenhum dos dois descreve a exploração comercial de uma produção cultural, que é o foco do trecho.