Questão 28 do ENEM 2020 — Língua Portuguesa
Vaca Estrela e Boi Fubá
Seu doutô, me dê licença Pra minha história contar Hoje eu tô em terra estranha É bem triste o meu penar Eu já fui muito feliz Vivendo no meu lugar Eu tinha cavalo bão Gostava de campear Todo dia eu aboiava Na porteira do currá
[...]
Eu sou fio do Nordeste Não nego meu naturá Mas uma seca medonha Me tangeu de lá pra cá
PATATIVA DO ASSARÉ. Intérpretes: PENA BRANCA; XAVANTINHO; TEIXEIRA, R. Ao vivo em Tatuí. Rio de Janeiro: Kuarup Discos, 1992 (fragmento).
Considerando-se o registro linguístico apresentado, a letra dessa canção
Resolução comentada
A questão pede que você avalie o papel do registro linguístico usado na canção de Patativa do Assaré, marcado por traços da fala nordestina e rural.
Repare nas formas: "doutô", "bão", "currá", "naturá", "fio" (filho), "tô", "campear", "aboiava", "tangeu". Há apagamento do /r/ final, vocabulário ligado ao universo sertanejo e uma sintaxe típica da oralidade. Essas marcas não são "erros": constituem uma variedade legítima, regional e social, que o poeta usa para dar voz ao retirante que perdeu seu lugar por causa da seca.
Assim, a canção integra o patrimônio linguístico do português brasileiro: registra, preserva e dá dignidade artística a uma variedade real da língua, parte da diversidade cultural do país.
As outras respostas não se sustentam. Exaltar "uma forma específica de dizer" é dar ao texto um propósito de elogio da variedade, que não está nele; a letra conta uma história de migração, e a variedade é meio, não tema. Dizer que usa elementos "pouco usuais na língua" trata a fala nordestina como desvio, quando ela é amplamente usada por seus falantes. Afirmar que influencia o modo de falar do povo brasileiro inverte a relação (a canção reflete a fala, não a molda). E discutir a diversidade lexical de um grupo exigiria um texto metalinguístico sobre o vocabulário, o que não ocorre.