Questão 25 do ENEM 2020 — Língua Portuguesa
Álvaro, me adiciona “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” Espanta que Álvaro de Campos tenha dito isso antes do advento das redes sociais. O heterônimo parece estar falando da minha timeline: “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”. Humblebrag é uma palavra que faz falta em português. Composta pela junção das palavras humble (humilde) e brag (gabar-se), seria algo como a gabação modesta. Em vez de simplesmente gabar-se: “Ganhei um prêmio de melhor ator no Festival de Gramado”, você diz: “O Festival de Gramado está muito decadente. Para vocês terem uma ideia, me deram um prêmio de melhor ator.” Atenção: se todo post é vaidoso, toda coluna também. Percebam o uso de palavras em inglês, a citação a Fernando Pessoa. Tudo o que eu mais quero é que vocês me achem o máximo. “Então sou só eu que sou vil e errôneo nessa terra?”. Não, Álvaro. Me adiciona.
DUVIVIER, G. Caviar é uma ova. São Paulo: Cia. das Letras, 2016 (adaptado). O texto traz uma crítica ao uso que as pessoas fazem da linguagem nas redes sociais. Qual passagem exemplifica linguisticamente essa crítica?
Resolução comentada
A questão pede que você localize, entre os trechos, aquele que exemplifica linguisticamente a crítica do cronista ao uso da linguagem nas redes sociais, isto é, que mostra na prática o comportamento criticado.
A crítica de Duvivier recai sobre o humblebrag, a "gabação modesta": a pessoa se vangloria disfarçando o elogio em falsa queixa ou falsa humildade. O próprio texto explica o mecanismo: em vez de dizer "Ganhei um prêmio de melhor ator", diz-se que o festival está "decadente", e que, "para vocês terem uma ideia", deram-lhe o prêmio. Repare que a frase aparentemente critica o festival, mas o verdadeiro objetivo é exibir o prêmio.
Por isso, a passagem que exemplifica a crítica é a do festival "muito decadente", em que se diz ter ganhado o prêmio de melhor ator: ela é um caso concreto de linguagem usada para se gabar fingindo não se gabar. Os demais trechos não são exemplos do comportamento; eles falam sobre ele.
A citação de Álvaro de Campos sobre os "campeões em tudo" e a comparação com a "timeline" apenas introduzem o tema. A explicação da palavra humblebrag é definição, não exemplo. E o trecho final ("Tudo o que eu mais quero é que vocês me achem o máximo"... "Me adiciona") é autocrítica irônica do próprio autor, que assume a vaidade da coluna, mas não demonstra a estratégia linguística da gabação modesta.