Questão 11 do ENEM 2020 — Literatura
Na sua imaginação perturbada sentia a natureza toda agitando-se para sufocá-la. Aumentavam as sombras. No céu, nuvens colossais e túmidas rolavam para o abismo do horizonte… Na várzea, ao clarão indeciso do crepúsculo, os seres tomavam ares de monstros… As montanhas, subindo ameaçadoras da terra, perfilavam-se tenebrosas… Os caminhos, espreguiçando-se sobre os campos, animavam-se quais serpentes infinitas… As árvores soltas choravam ao vento, como carpideiras fantásticas da natureza morta… Os aflitivos pássaros noturnos gemiam agouros com pios fúnebres. Maria quis fugir, mas os membros cansados não acudiam aos ímpetos do medo e deixavam-na prostrada em uma angústia desesperada.
ARANHA, J. P. G. Canaã. São Paulo: Ática, 1997.
No trecho, o narrador mobiliza recursos de linguagem que geram uma expressividade centrada na percepção da
Resolução comentada
À medida que o medo de Maria cresce, a paisagem ao redor também se transforma: sombras aumentam, montanhas parecem "ameaçadoras", caminhos "animam-se quais serpentes". Essa transformação simultânea mostra uma confluência entre o estado emocional da personagem e a paisagem descrita — a natureza reflete e amplifica a angústia interior dela.
Sugerir uma prevalência do mundo natural em relação à fragilidade humana não capta o texto, que não é sobre uma disputa entre natureza e ser humano — é sobre como a percepção distorcida de Maria, tomada pelo medo, projeta ameaças na paisagem; a natureza em si não muda, apenas o olhar assustado da personagem sobre ela.