Questão 42 do ENEM 2018 — Literatura
A Casa de Vidro
Houve protestos.
Deram uma bola a cada criança e tempo para brincar. Elas aprenderam malabarismos incríveis e algumas viajavam pelo mundo exibindo sua alegre habilidade. (O problema é que muitos, a maioria, não tinham jeito e eram feios de noite, assustadores. Seria melhor prender essa gente – havia quem dissesse.)
Houve protestos.
Aumentaram o preço da carne, liberaram os preços dos cereais e abriram crédito a juros baixos para o agricultor. O dinheiro que sobrasse, bem, digamos, ora o dinheiro que sobrasse!
Houve protestos.
Diminuíram os salários (infelizmente aumentou o número de assaltos) porque precisamos combater a inflação e, como se sabe, quando os salários estão acima do índice de produtividade eles se tornam altamente inflacionários, de modo que.
Houve protestos.
Proibiram os protestos.
E no lugar dos protestos nasceu o ódio. Então surgiu a Casa de Vidro, para acabar com aquele ódio.
ÂNGELO, I. A casa de vidro. São Paulo: Círculo do Livro, 1985.
Publicado em 1979, o texto compartilha com outras obras da literatura brasileira escritas no período as marcas o contexto em que foi produzido, como a
Resolução comentada
O texto usa a repetição irônica de "Houve protestos" seguida de medidas que pioram a vida da população, além de metáforas como a "Casa de Vidro", para criticar de forma indireta a situação política e social vivida durante o regime autoritário.
A leitura centrada na referência à censura e à opressão para alegorizar a falta de liberdade de expressão foca apenas nesse elemento do texto, mas não abrange o recurso mais amplo usado pelo autor: o uso constante de metáfora e ironia para construir a crítica em vários planos, não só o da liberdade de expressão.