Questão 124 do ENEM 2016 — Língua Portuguesa
De domingo
– Outrossim…
– O quê?
– O que o quê?
– O que você disse.
– Outrossim?
– É.
– O que é que tem?
– Nada. Só achei engraçado.
– Não vejo a graça.
– Você vai concordar que não é uma palavra de todos os dias.
– Ah, não é. Aliás, eu só uso domingo.
– Se bem que parece mais uma palavra de segunda-feira.
– Não. Palavra de segunda-feira é “óbice”.
– “Ônus”.
– “Ônus” também. “Desiderato”. “Resquício”.
– “Resquício” é de domingo.
– Não, não. Segunda. No máximo terça.
– Mas “outrossim”, francamente…
– Qual o problema?
– Retira o “outrossim”.
– Não retiro. É uma ótima palavra. Aliás é uma palavra difícil de usar. Não é qualquer um
que usa “outrossim”.
VERISSIMO, L. F. Comédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1996 (fragmento).
No texto, há uma discussão sobre o uso de algumas palavras da língua portuguesa. Esse uso promove o(a)
Resolução comentada
A graça do diálogo está no choque de registros: palavras de contextos formais ("outrossim", "óbice", "ônus", "desiderato") viram assunto de uma conversa cotidiana e descontraída, tratadas como "palavras de segunda-feira" ou "de domingo". Esse deslocamento produz o tom humorístico do texto.
A leitura de que há distanciamento entre os interlocutores não se confirma: os interlocutores conhecem bem as palavras e brincam com elas em cumplicidade — não há distanciamento entre eles, e sim um jogo compartilhado sobre o (des)uso desses termos.