Questão 107 do ENEM 2016 — Literatura
Em casa, Hideo ainda podia seguir fiel ao imperador japonês e às tradições que trouxera no navio que aportara em Santos. […] Por isso Hideo exigia que, aos domingos, todos estivessem juntos durante o almoço. Ele se sentava à cabeceira da mesa; à direita ficava Hanashiro, que era o primeiro filho, e Hitoshi, o segundo, e à esquerda, Haruo, depois Hiroshi, que era o mais novo. […] A esposa, que também era mãe, e as filhas, que também eram irmãs, aguardavam de pé ao redor da mesa […]. Haruo reclamava, não se cansava de reclamar: que se sentassem também as mulheres à mesa, que era um absurdo aquele costume. Quando se casasse, se sentariam à mesa a esposa e o marido, um em frente ao outro, porque não era o homem melhor que a mulher para ser o primeiro […]. Elas seguiam de pé, a mãe um pouco cansada dos protestos do filho, pois o momento do almoço era sagrado, não era hora de levantar bandeiras inúteis […].
NAKASATO, O. Nihonjin. São Paulo: Benvirá, 2011 (fragmento).
Referindo-se a práticas culturais de origem nipônica, o narrador registra as reações que elas provocam na família e mostra um contexto em que
Resolução comentada
Na cena, os lugares à mesa obedecem a uma hierarquia rígida: Hideo na cabeceira, os filhos homens dispostos por ordem de nascimento, e as mulheres de pé, servindo. O lugar à mesa metaforiza uma estrutura de poder patriarcal, que o filho Haruo contesta.
A leitura de que os conflitos de gênero tendem a ser neutralizados afirma o contrário do que o texto mostra: os conflitos de gênero não são neutralizados — Haruo "não se cansava de reclamar" da exclusão das mulheres, evidenciando a tensão entre tradição e novas gerações.