Questão 99 do ENEM 2015 — Literatura
Cântico VI
Tu tens um medo de
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
MEIRELES, C. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1963 (fragmento).
A poesia de Cecília Meireles revela concepções sobre o homem em seu aspecto existencial. Em Cântico VI, o eu lírico exorta seu interlocutor a perceber, como inerente à condição humana,
Resolução comentada
No poema, morrer e renovar-se todos os dias «no amor, na tristeza, na dúvida, no desejo» é o caminho para tornar-se eterno. O eu lírico aponta, portanto, uma sublimação espiritual alcançada pelo poder de se emocionar: são as emoções vividas intensamente que transformam o medo da morte em eternidade.
A opção que fala em receio ancestral de confrontar a imprevisibilidade das coisas distorce o ponto de partida do poema: o medo de acabar existe, mas não é apresentado como traço permanente da condição humana — é justamente o que deve ser superado pela vivência das emoções.