Questão 117 do ENEM 2015 — Língua Portuguesa
Exmº Sr. Governador:
Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928.
[…]
ADMINISTRAÇÃO
Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao Governo do Estado, que não precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama.
Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.
GRACILIANO RAMOS
RAMOS, G. Viventes das Alagoas. São Paulo: Martins Fontes, 1962.
O relatório traz a assinatura de Graciliano Ramos, na época, prefeito de Palmeira dos Índios, e é destinado ao governo do estado de Alagoas.
De natureza oficial, o texto chama a atenção por contrariar a norma prevista para esse gênero, pois o autor:
Resolução comentada
Relatórios oficiais pedem impessoalidade e objetividade, mas Graciliano ironiza os telegramas com imagens e humor: «porque o deputado F. esticou a canela — um telegrama». O autor contraria a norma do gênero ao expressar-se em linguagem subjetiva, com forte carga emocional e crítica.
A opção que fala em primeira pessoa para conotar intimidade com o destinatário não se sustenta: a primeira pessoa é admitida em relatórios («Trago a V. Exa.») e vem acompanhada de tratamento cerimonioso — não há conotação de intimidade com o governador.